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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Adónis

Ele tentava, sem sucesso, recriar a alegoria perfeita no papel, a alegoria que se pudesse equiparar àquela história do casal bíblico em que ela comeu a maçã errada e que, à conta disso, o mundo ainda hoje se encontra por endireitar. Nasceu torto, esforço vão.

Papel rasurado, papel rasgado, papel deitado fora.

Ali se encontrava ele, ébrio pelos seus próprios sonhos, aqueles que passavam por si à velocidade da luz, alguns deles infrenes, outros tantos amenos, a maior parte de distinta beleza.

A bolha de oxigénio era imensurável, flutuando ao sabor da inexistente gravidade. Dentro dela, ele flutuava, igualmente, sem sequer se dar conta da levitação de que o seu corpo era capaz.

Os pensamentos surgiam, com a mesma rapidez que o abandonavam. Claudicava, sempre, assim que relia o que acabara de escrever.

Em certo momento, um dos seus sonhos atinge em cheio a cápsula onde este se encontrava, deixando escapar - para o vazio - todo o oxigénio que aquela continha. O nosso adónis, enchendo o peito de ar, mergulha no indómito sonho que se cruzara no seu caminho e, ainda que insone, avança diretamente para o seu âmago, sem nunca olhar para trás.

Reencontra, então, o seu onírico coração, há muito perdido. Consumada a descoberta, volta a si no mesmo instante.

Estás ali, a seu lado, aninhada junto ao seu coração. O local? Desconheço... diria que uma folha de papel.

Sonho raro, este.


domingo, 13 de março de 2011

A vida é uma viagem



A vida é uma viagem. O senso comum já nos ensinou isso mesmo, que a vida é uma viagem no tempo. Mas desenganem-se aqueles que, ao julgarem as suas vidas estagnadas, inertes, imaginam que a viagem se encontra nas mesmas condições. A vida é uma viagem sem paragens. Aliás, permitam-me a correcção: a vida é uma viagem com uma única paragem. Mas essa espera-nos a todos.
Ao longo do espaço, a Terra desloca-se em torno do Sol. Desloca-se a uma velocidade aproximada de cem mil quilómetros por hora. Mas quando o ano termina, a Terra não voltou ao ponto de origem. E porquê? Porque a Terra não é o único astro em movimento. O próprio Sol desloca-se dentro da nossa Galáxia, que por sua vez também se desloca pelo Universo fora. Estima-se que a nossa Galáxia, a Via Láctea, se desloque a uma velocidade aproximada de dois milhões de quilómetros por hora.
Com estes dados científicos presentes na nossa mente, será difícil imaginar a vida como um processo estático no nosso mundo, em que após um momento a que damos o nome de nascimento, apenas nos poderá esperar um momento denominado fim (perdoem-me o medíocre eufemismo).
A viagem mais bonita que poderemos, então, realizar na nossa vida, será mesmo a viagem para a qual não precisamos de bilhete, nem tão-pouco de bagagem ou das férias que a permitam. E é por isso mesmo que a vida deverá ser sempre encarada com um sorriso. É por isso que a vida é muito mais bela quando gostamos de nós próprios, quando damos valor aos que gostam de nós, quando temos alguém que nos ama e a quem amamos de igual forma. Qualquer viagem poderá ter os seus contratempos, os seus percalços, os seus obstáculos. A vida não será, nunca, uma excepção. Mas com um sentimento de perseverança, qualquer dificuldade será agradavelmente ultrapassada.
Coloquem de parte quaisquer vaidades ou pretensões próprias de quem se julga capaz de carregar sozinho o mundo às costas, pois essa não será uma tarefa simples. Em sentido oposto, procurem sempre no amor a força e o encanto que poderá tornar a vossa viagem a mais perfeita de todas!


domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Universo somos nós


Dizem que o Universo é a “totalidade das coisas”, o “conjunto de quanto existe”. É uma amálgama de Matemática, Física, Química, Biologia, et caetera.

É o palco da vida e da morte, é onde existe o Céu e o Inferno, é onde descansam os Anjos e habitam os Demónios.

Mas, para ele, o Universo não se resumia a tamanha vastidão. Seria insensato reproduzir uma definição lata, sem antes idealizar uma mais restrita.

Portanto, para ele, não havia definição mais exacta: o sorriso dela era o coração do Universo.

Quando ela se detinha à sua frente, com os pés bem juntinhos e os olhos brilhantes como duas pérolas, o seu coração derretia-se. E, nessa altura, o Universo era de uma beleza inimaginável.

Quando eles se abraçavam, e ela enrugava o seu narizinho com as gargalhadas que trocavam, o tempo era generoso, e corria mais devagar. E, nessa altura, quando os seus corpos formavam um só, o Universo era como um ser apaixonado.

Arrebatados de paixão, para ambos a vida só tinha um sentido, um único objectivo: viver um amor eterno, um amor que perdure no mundo real e até no mundo dos sonhos, um amor que transforme o finito em infinito.

Uma vez alcançado esse objectivo, esse amor será um amor universal, um amor que ficará registado na história.

O sorriso dela expande-se, o coração do Universo bate com mais força.

O Universo somos nós.


domingo, 13 de dezembro de 2009

O amor


O destino de cada um estava traçado desde o nascimento do Universo. A cadeia de acontecimentos despertada pela grande explosão determinou o seu encontro naquele dia, naquele local, naquele instante.

Estava escrito que ela apareceria vestida de branco. Era Verão, e os seus longos cabelos loiros davam sentido à palavra harmonia. Seria o acaso que lhes daria a oportunidade de se olharem, de sorrirem um para o outro, dela ruborizar e dele proferir um “Olá…”.

Mas deus, num celestial acesso de fúria, abriu a terra no local predestinado. Irado com os vitupérios que se iam dizendo a seu respeito na Terra, não vislumbrou outra alternativa senão aquela.

E o mundo, tal qual o conhecemos, ficou dividido em dois. O medo incendiou-se dentro do coração de cada um, não deixando espaço a qualquer outro sentimento. Apenas se vislumbravam seres errantes vagueando por cada meio mundo.

Aos mais resistentes, nos quais o medo não venceu o amor, nasceram asas de Anjo. E foi, num conúbio perfeito, que esse amor voltou a unir o mundo. Porque, sem amor, nunca nada será possível.

Os, até então, quase amantes, puderam então ser amantes em pleno. O desígnio estava, de facto, desenhado.

Quanto a deus, este não foi castigado. Pois deus está em todo o lado, e – ainda assim – nunca se deixa apanhar...


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Por entre as estrelas...


Percorríamos o Universo, em busca da felicidade eterna. Havíamos descoberto o elixir da juventude: viajar acima da velocidade da luz mantinha-nos jovens. A Paixão que nos unia, mantinha-nos vivos.

Para trás havia ficado a Terra, Marte, Júpiter, e todos os outros astros que constituem o Sistema Solar. O nosso combustível era o Amor, e nada nos fazia parar. Viajámos por toda a Via Láctea, seduzidos pelo sentimento que nos ligava.

O Universo era único, de um esplendor nunca antes por nós imaginado. As estrelas insondadas sucediam-se, cada uma mais brilhante e impetuosa que a anterior.

Tivesse eu o dom da ubiquidade, e num instante os mistérios do desconhecido passariam a fazer parte do meu diário.

Contar-te-ia histórias de encantar, que dariam cor à nossa vida. A viagem seria eterna, tal qual a felicidade que desejávamos.

No entanto, foi num dos recantos do imenso Universo que nos perdemos um do outro.

Por entre as estrelas, continuo a chamar por ti.

Por entre as estrelas, choras a minha ausência.