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domingo, 5 de setembro de 2010

A aldeia


Mas que histórias fantásticas as daquela aldeia. A aldeia situada no fim do mundo, onde para lá chegar o comboio se perdia no meio dos vales e das montanhas.

Era a aldeia do poço mais fundo da Terra, da cobra-d'água do tamanho de dois homens adultos, do sujeito que nunca dormia e passava os dias e noites a contemplar o céu.

Era a aldeia do açude onde as mulheres não mais faziam que esfregar e lavar roupa.

Era a aldeia onde habitavam os maiores insectos do reino animal, e onde os morcegos eram do tamanho de águias para lhes poderem fazer face.

Era a aldeia da rã que vivia feliz num chafariz, do pequeno lacrau que corria por baixo dos meus pés, enquanto sentado no muro do quintal.

Era a aldeia onde os meus sonhos ganhavam vida, onde as minhas fantasias de menino se tornavam realidade.

Vinte anos depois, a aldeia não é mais a mesma.

O comboio fareja o caminho como um cão perdigueiro, mais rápido que a própria luz. O poço perdeu o seu encanto de construção assustadora, a cobra-d'água é pouco maior do que um palmo e meio. Quanto ao homem, que dizer de uma estátua que olha o céu sem azo a desatenções?

O açude é apenas uma lembrança, pois o ribeiro não resistiu à febre divina. Os insectos recuperaram a sua pequenez, os morcegos - resignados - seguiram o mesmo caminho.

O lugar onde antes existia um chafariz, é agora ocupado por um banco de jardim. Terá a rã regressado ao açude onde a água já não corre, e encontrado a companhia de um qualquer lacrau escondido debaixo de um seixo?

Rasgos de memória de uma infância não muito longínqua, vivida com anseio, paixão e muita fantasia.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O alter-ego


Tenho cinco anos. Não terei mais que isso. Estou no meu quarto, sozinho, e estendo as minhas pequenas mãos para a frente. Tomo consciência de que sou um ser racional, de que tenho uma consciência, de que estou vivo, de que existo. Agradeço a Deus a minha existência neste mundo (agradecimento, esse, provocado pela ingenuidade da idade), e sou assomado por uma felicidade sem fim.

A criança conhece, finalmente, o seu alter-ego. E nada voltará a ser como foi…