E o demónio seguiu-me, como se visse em mim o seu alvo, sendo ele um experimentado predador. Seguiu-me por entre ruas que eu desconheço, por entre ruas que não existem, por entre ruas criadas por si a cada instante, com becos que desembocam em becos, sucessivamente mais estreitos e curtos, fazendo de mim a sua personagem idílica de uma emboscada há muito idealizada. E eu não conto com a ajuda de ninguém, pois sou apenas eu e o demónio, o demónio e eu, como se me encontrasse à deriva num mar encruzilhado, sistematicamente fustigado pela sua fúria demoníaca, à deriva num mar encruzilhado. E eu decido interromper a fuga, pois o demónio não pode ser real, não pode ser real, e o demónio sorri, sibilante, e fixa-me o olhar, o demónio, e a terra arde e ferve por baixo dos seus cascos, e o calor queima-me e consome-me o espírito. E eu pergunto-lhe o que queres, sua traça que tudo corrói, que tudo desfaz, que tudo destrói, que tudo arruína, que tudo perverte. E o demónio olha-me com compaixão, como se de um velho amigo eu me tratasse. E o seu sorriso, inquietante, provocador, nunca se altera. É um sorriso matraqueado, insistente, intemporal. E eu volto costas ao demónio, e as ruas já não são as mesmas. A noite caiu com mão pesada sobre aquele labirinto que é negro como o fundo de um poço, onde já não existe esperança para quem no seu interior tropeçou. E a noite caiu sem estrelas, sem lua, sem sentimento. E eu olho o céu, e vejo o sorriso do demónio, sibilante, omnipresente, omnipotente. E a terra queima sob os meus pés, fervo por dentro como se atingido por uma febre perniciosa. E retomo o passo, depois de uma eternidade que passou naquele instante, preparado para uma eternidade de instantes que há de vir. E corro, agora, no teu encalço, demónio, cujo rasto não são mais que feridas abertas nesta terra, nesta terra que não te pertence, que não é tua. E cravo o meu olhar no teu, demónio, num instante que será eterno, num instante que será somente meu. Aceita o meu sorriso.
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domingo, 3 de junho de 2012
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Falls Church: a Estória do Assassino

Sorumbático, o assassino caminhava pela West Broad Street da pequena cidade de Falls Church, no Estado Americano de Virgínia. Dirigia-se para o lado Este da povoação, afectado por um estranho sentimento de repugnância por si mesmo.
Havia cometido um crime hediondo, pelo qual já havia nutrido um enorme orgulho. Neste momento, era acometido por uma repulsa sem fim, procurando a todo o custo a redenção junto de Deus. Mas Deus não o queria perto de si.
Em cada cruzamento que se apresentava no seu caminho, aí estava o Diabo a espreitá-lo, a medir os seus movimentos, a sentir o seu cheiro fresco de homicida.
Ainda que o assassino tivesse perdido os seus óculos, e a sua miopia não o ajudasse a discernir um abeto de um cipreste a uma distância de dez metros, este já tinha percebido que não se encontrava sozinho na então solitária e estranhamente fantasmagórica Falls Church.
Enquanto o Sol se punha, e perante o olhar atento do Todo-poderoso, o Diabo propõe a si mesmo o jogo do “gato e do rato”. Há muito que ansiava por um pouco de diversão, e eis que este momento se afigurava magistral para o efeito.
O assassino acaba de avistar um vulto na esquina da North Fairfax Street. Quase que instantaneamente, o Demónio procura esconder-se atrás de uma árvore de porte médio. De fora fica apenas a sua cauda sibilante, cortando o vento melodiosamente.
Assustado, e julgando estar a delirar, o assassino empreende uma fuga rápida pela Lawton Street, tentando – desesperadamente – chegar ao Falls Church Park e ao seu denso, embora diminuto, bosque.
O Diabo, não dispondo do dom da ubiquidade, prontamente assume o papel de gato, procurando alcançar avidamente a sua presa.
O assassino chega ao Falls Church Park com os bofes de fora, ofegando descompassadamente. Com um revólver de calibre trinta e oito na mão direita, recorda-se, a custo, do crime cometido há uns dias atrás. Parece conseguir, por momentos, sentir o aroma do salitre, do enxofre e do carvão, numa composição explosiva que denominamos de pólvora. Esta breve sensação deixa-o sombriamente empolgado, desejando voltar a avistar o vulto de há pouco.
Apercebendo-se da existência do revólver, e temendo pela sua vida, uma vez que de carne e osso também é feito, o Diabo prepara uma verdadeira cilada ao assassino. Com garras de felino, sobe sorrateiramente ao topo do freixo mais alto do bosque. Enquanto isso, o assassino puxa para fora o tambor do seu revólver, conferindo o número de munições: depois do frenesim de há dias, apenas lhe sobraram duas.
A uma distância de vinte metros do solo, o Demónio deixa escapar um sorriso diabólico, ao mesmo tempo que parte silenciosamente um ramo e o atira para junto da base da árvore, procurando trazer até si o assassino.
Ao ouvir o barulho causado pelo impacto do ramo no chão do bosque, o assassino aponta o revólver para o ar, puxa o cão atrás e prime freneticamente o gatilho, numa clara tentativa de amedrontar o vulto escondido.
Pois o projéctil, quem sabe por inspiração divina, rasga o ar na precisa direcção do Diabo, que se encontrava aninhado no ramo mais alto do freixo.
Diz quem sabe, por inconveniente conhecimento de causa, que se assemelha a uma picada de agulha. Pois terá sido o Diabo, certamente, presenteado com diferente dor, visto que quando a bala rompe por completo o tendão de aquiles do seu pé esquerdo, um grito lancinante irrompe do Falls Church Park, prolongando-se até ao momento em que este se estatela no solo.
O assassino, estupefacto, aproxima-se da Besta, com um olhar febril e experienciando uma friúra interior imensurável. O Diabo geme com dores, ao mesmo tempo que o assassino roda o tambor do seu revólver, no qual sobra agora uma munição. Dirigindo-se ao Demónio, com os olhos incendiados pela loucura, pergunta-lhe de forma seca e sem rodeios:
“Vamos jogar à roleta russa?”
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Um calor infernal

Abri a janela e voei. Voei para bem alto, donde os carros pareciam de brincar. Com os braços abertos e os pulmões cheios de ar, bastava desejar com muita força para que o voo fosse possível.
As correntes de ar frio aqueciam-me o espírito, reservando-me tempo para compreender tamanho paradoxo.
Entretanto, foi numa nuvem de tempo ameno que encontrei alguns amigos. De imediato me convidaram a sentar junto deles, enquanto conversavam com um indivíduo que nunca eu antes tinha visto. Uma misteriosa névoa envolvia o sujeito, tanto que a dois metros de distância me era impossível descrever o seu semblante.
O ambiente era estranho, começando a sentir-se um calor desconfortável naquela nuvem de tez branca, como se de uma pessoa se tratasse.
O indivíduo falava de personagens marcantes da história da humanidade, rindo-se dos seus perversos e repugnantes feitos. Falou de Calígula e a sua esquizofrenia bárbara, de Nero e a sua tirania desmedida, de Átila e o seu reinado de terror e destruição.
Fazia calor, cada vez mais calor. O indivídulo animava-se ao relembrar o Príncipe Vlad Drácula e os seus métodos de tortura e execução; deleitava-se ao recordar Ivan IV, o “Terrível”, e os seus catastróficos acessos de fúria. Os seus olhos brilharam quando a Condessa Isabel Báthori e o seu sadismo assassino despertaram na sua memória.
O calor tornara-se infernal. Era a vez de Estaline, Hitler, Pol Pot e Idi Amin Dada ganharem vida nas palavras do indivíduo. Ria-se com vontade ao descrever os genocídios perpetrados por tais figuras.
Quando a temperatura atingiu o seu auge, e quando todos nós, com excepção do indivíduo, parecíamos caminhar para um desfalecimento abrupto, este pediu-nos que olhássemos rapidamente para o Sol.
Olhos fitados na estrela, tão depressa fitados novamente no indivíduo. Assim o julgávamos nós, pois este havia desaparecido.
Foi enquanto o Diabo esfrega um olho.
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