Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O caminho

Sónia Guerreiro 
Tenho saudades de escrever para ti, mas não te conheço.

A carta voa para um destino incerto, na esperança de ser recebida pelas mãos que a esperam.

Transportada pelo vento, vai perdendo, ao longo do seu trajeto, as palavras que te escrevi.

Atravessa uma tempestade, talvez duas, antes de cair aos teus pés.

"Gosto muito de ti", foi a única frase que a folha de papel guardou.

No céu, o teu sorriso desperta um arco-íris, o sinal pelo qual eu sempre esperei.

Agora, que conheço o caminho, o mundo é meu para sempre.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Um caminho, um instante

Sónia Guerreiro
Esperou por ele um instante. Um número infinito de instantes, talvez. Esperou o tempo suficiente para que o mundo nascesse duas vezes, e ainda assim lhe pareceu apenas um momento. Esperou, enquanto o mundo envelhecia, enquanto as estrelas brilhavam entre si, enquanto os universos se expandiam e contraíam.

Esperou, enquanto a lua embalava as noites e o sol amornava os dias. Esperou, sabendo que ele não mais voltaria, sabendo que a espera seria vã, como se esperasse o passado no futuro, ou o futuro no passado.

Esperou, alimentando a esperança que em si existia, com recordações que foi esquecendo. Porque a memória é traiçoeira, se o é.

Esperou, até se sentir exausta, como se acabasse de nascer e o ar lhe faltasse para poder chorar.

A espera foi madrasta para os sonhos que habitavam em si.

Ele quis reencontrar-te, eu sei que sim. Mas o caminho, o caminho já não tinha o mesmo chão...


sexta-feira, 9 de março de 2012

Um punhado de terra

Ao agarrar num punhado de terra, ela tomou-lhe, ali mesmo, o peso da dor sob os seus pés.

Descalços, caminhavam sobre um solo carregado de solidão, uma terra taciturna e pesarosa por não lhe ter sido dada a oportunidade de dar vida à vida.

De todos os locais inóspitos que havia percorrido, este era, indubitavelmente, o seu local de eleição. As árvores, despidas e deslutradas, vergavam-se à sua passagem. Por mais violento que pudesse parecer, este era  verdadeiramente  um cenário imperdível.

Os seus dedos, imaculados e suaves, acariciavam levemente as flores, que se esticavam para sentir o seu terno aroma feminino.

"Quem sou eu?", pergunta a si mesma.

Não sei quem és, juro que não sei. Apenas te vislumbro ao longe, bem longe. Não sei se estás no céu, ou se, porventura, este recôndito lugar é o inferno.

O sol escondeu-se. "Miserável, não fujas", digo para comigo. Creio que me ouviste o pensamento, porquanto tentas fitar o meu olhar. 

Não sou capaz de te enfrentar. Baixo-me, e agarro num punhado de terra. Posso assegurar-te que sinto a tua dor. 

O teu coração arrisca uma súbita paragem. Cais, de joelhos, na terra humedecida pelas lágrimas que não consegues conter. Prostrada, levas as tuas mãos à cara e choras convulsivamente, choras sem parar por um tempo quase eterno.

O sentimento de impotência é algo inimaginavelmente cruel. Tento, a todo o custo, corrigir esta falta de forças que nos atinge. Sinto a terra a consumir-nos o espírito.

"Quem sou eu?", pergunto a mim mesmo, agora já bem próximo de ti. 

Seguras-me na mão, por fim. 

"Vamos embora. O inferno não foi feito para nós.".


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Adónis

Ele tentava, sem sucesso, recriar a alegoria perfeita no papel, a alegoria que se pudesse equiparar àquela história do casal bíblico em que ela comeu a maçã errada e que, à conta disso, o mundo ainda hoje se encontra por endireitar. Nasceu torto, esforço vão.

Papel rasurado, papel rasgado, papel deitado fora.

Ali se encontrava ele, ébrio pelos seus próprios sonhos, aqueles que passavam por si à velocidade da luz, alguns deles infrenes, outros tantos amenos, a maior parte de distinta beleza.

A bolha de oxigénio era imensurável, flutuando ao sabor da inexistente gravidade. Dentro dela, ele flutuava, igualmente, sem sequer se dar conta da levitação de que o seu corpo era capaz.

Os pensamentos surgiam, com a mesma rapidez que o abandonavam. Claudicava, sempre, assim que relia o que acabara de escrever.

Em certo momento, um dos seus sonhos atinge em cheio a cápsula onde este se encontrava, deixando escapar - para o vazio - todo o oxigénio que aquela continha. O nosso adónis, enchendo o peito de ar, mergulha no indómito sonho que se cruzara no seu caminho e, ainda que insone, avança diretamente para o seu âmago, sem nunca olhar para trás.

Reencontra, então, o seu onírico coração, há muito perdido. Consumada a descoberta, volta a si no mesmo instante.

Estás ali, a seu lado, aninhada junto ao seu coração. O local? Desconheço... diria que uma folha de papel.

Sonho raro, este.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Junto do teu coração

A flor era perfeita, deslumbrantemente bela. Era a última da sua espécie, ainda que, consciente disso, nenhum estado de solidão a afetasse.

As suas pétalas emanavam o perfume característico dos seres divinos, aquele que os anjos transportam para as nossas vidas nos momentos mais impetuosos e que parecem capazes de abalar os alicerces imaginários que nos prendem a este nosso mundo.

A flor, assumindo a sua face mais insolente, viajou diretamente para o sonho que te encontravas a viver. Sem permissão, perfumou todos os cantos e recantos do teu espírito, enchendo a tua alma – imperiosamente – com o mais distinto dos sentimentos.

Ela não se esqueceu, por último, de se mostrar a ti.

Quando, naquela vasta planície,
Olhavas o céu e contemplavas o nosso Sol,
Quando estendeste os teus braços,
Somente para abraçares o calor que este te oferecia,
A flor, a última da sua espécie,
Voou para junto de ti,
Para junto do teu coração.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dentro de nós

"A nossa única defesa contra a morte é o amor", disse, um dia, um génio português (escritor).

Quantos de nós não nos esquecemos, em algum momento das nossas vidas (admitindo que não se trata de um esquecimento permanente), da importância do amor como solução e defesa para tantas adversidades?

Não tenho dúvidas no que respeita ao facto de não existir um paradigma da felicidade (ou do amor). São tantos, e tão variados, os fatores que moldam a nossa postura perante a vida, que tentar justificar a felicidade de alguém por meio de um silogismo, por exemplo, seria  notoriamente – absurdo.

Ainda assim, custa-me  sou-vos honesto – perceber o porquê da obsessão concertada de muita gente, em conseguir atingir certos objetivos sem olhar a meios, sem qualquer amor naquilo que fazem (e, quantas vezes, com a morte à espreita...).

A morte é invisível. Não a sentimos  ainda que, de quando em vez, haja lugar a inusitados pressentimentos , embora ela possa estar bem junto de nós. Por outro lado, acreditar que o amor é visível é um pensamento lírico. O amor existe nas nossas vidas, sob diversas formas, com diferentes intensidades, assumindo sempre a invisibilidade necessária para não se tornar material.

E é por isso que o amor vence sempre, mesmo quando a morte é o opositor a enfrentar.

Quando, um dia, percebermos o sentido da vida (se esse dia chegar), poderá ser tarde de mais. No entanto, não terá sido em vão.

Não nos esqueçamos que "A finitude é o destino de tudo. O Sol, um dia, apagar-se-á" (o escritor tinha razão).

Não vamos esquecer o amor, pois a morte não se esquecerá de nós.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perfectus

O mundo funciona quando gostamos uns dos outros. Mas também funciona quando os sentimentos são substituídos por artimanhas, jogadas, estratagemas. Funciona quando imprimimos amor àquilo que criamos, mas também funciona quando somos apenas marionetas no meio de virtuosos espectáculos de hipocrisia.

Não consigo conceber um conceito para "mundo perfeito". Talvez seja uma tarefa utópica, quiçá paradoxal, ou então apenas fora do alcance da minha modesta compreensão. Bem, talvez seja algo realmente inatingível.

Poderá o meu bem-estar e felicidade condicionar, de alguma forma, o bem-estar e felicidade dos outros? Certamente. Não será necessário enunciar exemplos sobejamente conhecidos para consubstanciar tal raciocínio. E é assim que o meu conceito de "mundo perfeito", aquele que eu não consigo conceber, cai por terra. Simplesmente porque, um "mundo perfeito", não existe: é irrealizável, é inconcretizável.

Como resultado desta breve reflexão, o meu ateísmo fica ligeiramente abalado. Afinal, o nosso "mundo imperfeito" poderá mesmo ter sido criado pelo deus de todos nós, aquele que, para alguns, é o "deus perfeito". Já o contrário... bem, o contrário não teria sido possível.

Porquê? Deixo ao vosso critério.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dogmas, convicções e verdades absolutas


Um dia, acordarás após uma longa e desconcertante reflexão. Para quê uma vida baseada em dogmas, quando é tão simples questionar as coisas?
Explica-me o porquê de viveres prisioneiro de verdades absolutas, verdades que tu nem sequer tens a capacidade de compreender?
Para quê viver mergulhado em convicções sem substância, convicções que tu não és capaz de defender?
Não, não necessitas do coeficiente de inteligência de um génio. Afinal, será preciso tanto para aspirar a uma vida diferente da de um rebanho que apenas segue as ordens do seu pastor?
Questiona-te. Procura o porquê das coisas. Não acredites em tudo o que ouves, em tudo o que vês. A ingenuidade poderá ser-te útil em algumas ocasiões da tua vida, mas certamente que a ignorância não será a tua melhor conselheira nos momentos mais complicados. Procura o equilíbrio no mundo que te rodeia, no sentido que almejas para a tua vida. Não sejas céptico em relação ao que desconheces: o desconhecido não terá que ser, forçosamente, aterrador nem, tão-pouco, quimérico.
Procura o amor que fará de ti uma pessoa melhor. Nunca desistas de o encontrar. Poderás não saber o dia em que tal irá acontecer, e a espera poderá parecer eterna...
...mas, uma coisa é certa: à medida que o tempo for passando, estarás cada vez mais perto desse momento.


domingo, 17 de abril de 2011

A tua flor


A flor que te quis oferecer, semeei-a no teu jardim, exatamente no seu centro, longe da atenção dos pássaros que por ali esvoaçavam todas as manhãs e de todas as restantes flores protegidas pelos respetivos canteiros.


A flor que te quis oferecer, crescia com o mesmo entusiasmo que a minha paixão crescia por ti, verdadeiramente inebriada. Era uma flor que ganhava vida com os primeiros raios de sol matutinos, que ganhava o seu esplendor máximo quando o astro rei atingia o seu ponto mais alto no vasto céu azul.

Quando caía a noite, a flor fechava-se em copas no seu mundo, não deixando, no entanto, de perder um pouco que fosse da sua doce beleza.

Naquele pedaço de terra, até as ervas daninhas apresentavam um sentimento de especial devoção pelo ser mais belo do jardim, não se atrevendo, nunca, a chegar-lhe perto.

No dia em que a flor se tornou adulta, não fui capaz de a arrancar do solo. Eu não tinha esse direito.

Contudo, havia chegado um outro momento.

Trouxe-te até mim, até junto da flor que agora mesmo te ofereço.

Pois foi sob o olhar atento da tua flor, que por ti declarei o meu amor.


segunda-feira, 28 de março de 2011

A mensagem


"Quando os viu, enfim, abraçados, Deus aplaudiu a tenacidade que se respirava no ar". Mas já lá vamos...

Estávamos no Verão. Viviam-se dias de pura felicidade, com calor na medida certa. Ela encontrava-se sozinha em casa, a contar os minutos para sair à rua. Vestiu o melhor vestido que tinha no seu guarda-roupa e soltou os seus longos cabelos morenos. Por fim, agarrou no seu batom preferido e pintou os lábios.

Por esta altura, ele já se encontra a caminho. O percurso que ainda tem pela frente é longo, mas isso pouco importa. Traz dentro de si a leveza de quem ama a vida, a inocência de quem nada teme.

Combinaram encontrar-se num farol de terra, local bem conhecido dos dois. Situava-se num dos pontos mais altos daquela pequena e tranquila cidade costeira, com vista para o outro lado do oceano.

Quando o relógio dela avisou ter chegado o momento para sair de casa, quando o Sol não estava longe de se pôr, o mundo desabou sobre aquela simpática localidade. O céu rapidamente se pintou de negro, tal era o número de nuvens tempestuosas. No instante seguinte, choveram do céu raios e trovões aos milhares, dando lugar ao espectáculo mais insólito que alguma vez aquele local havia presenciado. A chuva começou a cair impetuosamente, deixando no ar um aroma a dilúvio.

À porta de casa, ela olha o céu e inspira bem fundo. Sai a correr, com um sorriso bem rasgado nos lábios. Pelo caminho, em direcção ao farol, acaba por deixar para trás o calçado que trazia, correndo descalça e sentindo no corpo a chuva quente que, obstinadamente, não cessava. Desde que saíu de casa, não passaram, seguramente, mais que dez minutos até que alcançasse a imponente construção. Subiu as escadas com vigor, aproximando-se, em seguida, do enorme foco luminoso, assegurando-se que a cobertura que anteriormente ali havia colocado estava nas melhores condições. E assim era.

Sofrendo na pele, igualmente, a inusitada tempestade, ele procura - a todo o custo - vencer a distância que ainda o separa do farol.

No momento em que o dia, finalmente, dá lugar à noite, ela liga o potente projector de luz. No céu, sob o olhar atento de Deus, lê-se, projectada, uma mensagem que servirá de inspiração ao que resta do caminho que ele ainda tem para percorrer.

Uma vez alcançado o farol, após uma corrida que parecia não ter fim, ela corre para os seus braços.

Quando os viu, enfim, abraçados, Deus aplaudiu a tenacidade que se respirava no ar.

Ele olha o céu e pisca-Lhe o olho. Nos seus olhos brilha, reflectida, a mensagem representada no firmamento: "Até que a morte nos separe!".


sábado, 19 de março de 2011

A Lua


Todas as noites da sua vida, recuando até ao passado distante que a memória lhe permite recordar, a menina, hoje mulher, ía à janela contemplar a Lua.
As noites de Lua Nova, fenómeno que, durante muito tempo, se revestiu de enorme mistério para si, sempre foram as noites que mais lhe custaram a passar. Em todas as outras, as quais, para seu grande júbilo, preenchiam a maior parte do calendário, a menina despendia largos minutos a pedir conselhos, bem como alguns desejos, ao mais bonito dos astros satélite do nosso vasto sistema solar.
Apesar de nunca ter tido forma de o demonstrar, foi crescendo, no coração da Lua, um enorme sentimento de compaixão e amizade pela menina que, todas as noites, procurava junto de si um pouco de companhia.
Os anos foram passando, à medida que, sob o olhar atento da Lua, os sonhos da menina íam amadurecendo. Há muito que a Lua tinha conhecimento do seu sonho mais bonito, aquele em que esta conhecia o seu grande amor.
No dia em que a menina concretizou o seu sonho, a Lua não conseguiu conter a sua felicidade, tendo, na noite imediata, adquirido um tamanho admiravelmente encantador, combinado com uma tonalidade alaranjada apenas observável em momentos especiais como este: estava verdadeiramente feliz.
Pois aproveitemos hoje, a noite, para pedirmos à Lua os nossos desejos mais belos... ela está à nossa espera!


domingo, 13 de março de 2011

A vida é uma viagem



A vida é uma viagem. O senso comum já nos ensinou isso mesmo, que a vida é uma viagem no tempo. Mas desenganem-se aqueles que, ao julgarem as suas vidas estagnadas, inertes, imaginam que a viagem se encontra nas mesmas condições. A vida é uma viagem sem paragens. Aliás, permitam-me a correcção: a vida é uma viagem com uma única paragem. Mas essa espera-nos a todos.
Ao longo do espaço, a Terra desloca-se em torno do Sol. Desloca-se a uma velocidade aproximada de cem mil quilómetros por hora. Mas quando o ano termina, a Terra não voltou ao ponto de origem. E porquê? Porque a Terra não é o único astro em movimento. O próprio Sol desloca-se dentro da nossa Galáxia, que por sua vez também se desloca pelo Universo fora. Estima-se que a nossa Galáxia, a Via Láctea, se desloque a uma velocidade aproximada de dois milhões de quilómetros por hora.
Com estes dados científicos presentes na nossa mente, será difícil imaginar a vida como um processo estático no nosso mundo, em que após um momento a que damos o nome de nascimento, apenas nos poderá esperar um momento denominado fim (perdoem-me o medíocre eufemismo).
A viagem mais bonita que poderemos, então, realizar na nossa vida, será mesmo a viagem para a qual não precisamos de bilhete, nem tão-pouco de bagagem ou das férias que a permitam. E é por isso mesmo que a vida deverá ser sempre encarada com um sorriso. É por isso que a vida é muito mais bela quando gostamos de nós próprios, quando damos valor aos que gostam de nós, quando temos alguém que nos ama e a quem amamos de igual forma. Qualquer viagem poderá ter os seus contratempos, os seus percalços, os seus obstáculos. A vida não será, nunca, uma excepção. Mas com um sentimento de perseverança, qualquer dificuldade será agradavelmente ultrapassada.
Coloquem de parte quaisquer vaidades ou pretensões próprias de quem se julga capaz de carregar sozinho o mundo às costas, pois essa não será uma tarefa simples. Em sentido oposto, procurem sempre no amor a força e o encanto que poderá tornar a vossa viagem a mais perfeita de todas!


quinta-feira, 10 de março de 2011

De mãos dadas


Todos os dias, quando acordava, ele sentia a sua presença. Sentia o seu perfume, sentia os seus leves e inaudíveis passos. Imaginava-a assombrosamente bela, esperando que a memória nunca o traísse. Podia jurar que, por vezes, via a sombra dela reflectida ao lado da sua. Não mais que isso, apenas a sua sombra...
Todos os dias, ela tinha a oportunidade de o ver acordar. Seguia os seus passos, cuidadosamente, deixando o seu perfume a pairar por onde passava. Por vezes, por breves instantes, contemplava a sua própria beleza num qualquer espelho. Era apaixonada pela sombra dele, não o queria ver longe de si...
Quando, ao entardecer, ele decidia ir ver o pôr-do-sol junto ao mar, a sua sombra engrandecia. Nesses momentos, o coração dela gozava de uma felicidade extrema, sempre a seu lado até que o Sol desse lugar a um céu estrelado...
Nos dias de pôr-do-sol junto ao mar, ele regressava a casa, pesarosamente, carregando dentro de si um sentimento inexplicável.
Nesses dias, ao deitar-se, e quando o primeiro sonho se preparava para nascer, já ele dormia profundamente a seu lado, sempre de mãos dadas...


domingo, 6 de março de 2011

Afrodite, a Deusa do Amor



Saíu cedo de casa, naquele dia que nada tinha de especial, dirigindo-se – de imediato – para o bosque que circundava o local onde vivia. Este bosque, contrariamente a muitos outros que habitam o nosso vasto mundo, não tinha um único rasgo de magia. Apesar das árvores que o constituiam serem já velhas anciãs, algumas com mais de mil anos, o bosque não nos transportava para qualquer realidade diferente daquela que nos apresentava: um número de árvores sem fim. Grandes, pequenas, altas, baixas, com muita ou nenhuma folhagem, havia tantas árvores e tão distintas umas das outras, que o bosque se sentia capaz de desafiar os poderes da criação.
Mas o rapaz, movido pela notória ausência de magia experienciada na enorme floresta, há muito que decidira fazer algo para alterar aquele cenário.
Não era a primeira vez que visitava o ponto central do bosque, local que a maior árvore da floresta havia escolhido para criar raízes. Uma vez lá chegado, pôde constatar que todo o material que anteriormente havia colocado junto à grande árvore, se encontrava imaculadamente intacto: tábuas, cordas, roldanas, pregos e demais ferramentas próprias de carpintaria. Na sua mochila, trazia mantimentos para uns tempos de estadia.
Lançadas mãos à obra, ao fim de três dias encontrava-se realizado o objectivo a que se propusera: construir uma casa a meio da grande árvore, aliçercada pelos robustos ramos que a compunham. A uma altura de cerca de cinquenta metros do solo, a vista sobre o bosque era grandiosa, dada a imponência que a árvore ostentava.
No entanto, o inesperado tomou lugar. De repente, as nuvens cobriram o Sol, e um dilúvio como nunca antes fora visto abateu-se sobre a floresta. Choveu ininterruptamente durante dois dias inteiros, fazendo do rapaz prisioneiro da casa que acabara de construir. Quando, finalmente, as nuvens decidiram dar tréguas, o nível da água tinha atingido os dez metros de altura. E foi nesse preciso momento que o rapaz, que até então desconhecia a sua fobia, se apercebeu do pavor que aquela imensidão de água lhe causava. A hidrofobia havia-lhe sido transmitida pelos seus antepassados ancestrais, algo de que nunca poderá desconfiar.
Voltas e mais voltas deu no diminuto abrigo resultante do seu empenho, ao mesmo tempo que a chuva regressava e regava copiosamente o incomensurável jardim de árvores que era aquele bosque. O medo da água intensificava-se, agora, enquanto que o desespero começava a ganhar força dentro de si, uma vez que os mantimentos que lhe restavam não chegariam para mais que um par de dias de sobrevivência.
Mas foi então que, das águas negras que banhavam o solo da floresta, emergiu a Deusa “nascida-da-espuma”. Afrodite, a Deusa do Amor, voou até junto da casa de madeira, pairando em frente do rapaz. Na companhia de dezenas de pombas brancas, ela surgiu com os seus longos cabelos molhados pela água fria do novo mar, transmitindo ao rapaz uma inusitada segurança. Este contemplava a beleza sobrenatural da Deusa, entretanto hipnotizado pelo seu olhar penetrante.

Afrodite esvoaçou, por breves momentos, em torno do abrigo, fazendo daquele bosque um local extraordinariamente mágico. No instante seguinte, voou até ao rapaz, envolvendo-o nos seus braços e viajando com ele para bem longe. Encontrado um lugar seguro, a Deusa do Amor despediu-se do rapaz com um beijo carregado de sedução, e com a promessa de que um dia se voltariam a encontrar.
Os anos passaram-se. Foi há bem pouco tempo que decidi voltar ao bosque. A grande árvore permanecia igual, com a casa de madeira bem lá no alto. O impulso foi apenas um: subir até ao abrigo, o sítio onde se encontravam guardados os momentos de magia daquele dia já distante.
Seria hipocrisia se dissesse que a minha reacção foi de surpresa ou perplexidade.
Afrodite esperava por mim. E eu fui ao seu encontro.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Canto do Mar


O ponto de encontro não ficava longe do centro da cidade. Era um local recatado, muito embora fizesse fronteita com o imenso mar que banhava toda a costa leste do país. Fazia frio, apesar da baixa temperatura não ser suficiente para provocar o desconforto físico próprio daquela altura do ano.

O Outono caminhava para os seus últimos dias, com o Sol a esforçar-se para manter acesa a sua chama.

O relógio marcava as três horas da tarde. Nenhum dos dois chegou atrasado ao local combinado, situação que se verificara devido à enorme ansiedade que cada um transportava dentro de si. Este encontro havia sido motivado por algo deveras insólito. Há exactamente um dia atrás, precisamente no mesmo segundo, do mesmo minuto, da mesma hora, cada um deles enviou ao outro a seguinte mensagem: “Tenho um segredo para te contar”.

O momento revestia-se de tamanha perplexidade, que no instante imediato decidiram encontrar-se no dia seguinte. Cada um deles, talvez por mútua transmissão de pensamentos, sentiu o ímpeto de escrever o seu segredo num pequeno pedaço de papel, o qual foi posteriormente dobrado em quatro partes iguais.

Voltando ao ponto de encontro, os dois sentaram-se lado a lado, virados para o mar e contemplando a serena rebentação das ondas. Nenhum deles o sabe, mas os seus corações, neste preciso momento, batem exactamente ao mesmo ritmo, compassadamente e com vigor.

Ao longe, ela consegue escutar o canto do mar. Está certa que o consegue; só poderá ser o canto do mar. Quanto tempo esperaram por este momento? O tempo de uma vida? Não sabemos. Conhecem-se há pouco mais de um ano, o tempo suficiente para se verem dissipadas quaisquer dúvidas.

Ele antecipa-se, e retira do seu bolso o segredo que tem para lhe revelar. Ela segue-lhe os movimentos, fazendo a mesma coisa.

Trocam de segredos, com dois sorrisos bem rasgados. Se o destino realmente existe, então este destino estaria de facto traçado.

Os dois pedaços de papel contêm a mesma palavra. Um “Amo-te” escrito com paixão, com a mesma paixão que os acompanhará em todos os passos das suas vidas.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Principezinho


Foi a sonhar que, um dia, conheceu o Principezinho. O sonho era de tal forma realista, que a primeira coisa que os seus lábios foram capazes de pronunciar foi:
– Principezinho, que fazes tu aqui...?
O cenário, contrariamente ao que seria de esperar, não se apresentava na forma de deserto, mas sim na de um aprazível e imensurável campo repleto das mais variadas e belas flores.
– Procuro a minha rosa – respondeu o Principezinho –, mas as flores aqui são tantas... ajudas-me a encontrá-la?
– Claro que sim – respondeu ela, agarrando na sua pequenina e delicada mão.
O sol estava pintado de um laranja que o nosso parco vocabulário nunca conseguirá descrever. Quanto ao céu, este estava apaixonantemente admirável, refulgindo essa mesma intensidade em todas as flores do vasto campo. À passagem dos dois passeantes, estas pareciam sorrir.
– Como te chamas? – perguntou o Principezinho.
– Eu... eu... eu não me lembro do meu nome! – exclamou ela, como que desconcertada com a súbita amnésia.
– Deixa, não te preocupes... tens ar de sonhadora, chamar-te-ei Sonhadora. Importas-te?
– Não, claro que não me importo, Principezinho – ao mesmo tempo que fazia um esforço sobre-humano para se recordar do seu próprio nome.
– Sonhadora, nós não encontramos a minha rosa...
– Não fiques triste, Principezinho. Havemos de encontrá-la, mas se isso não acontecer...
– Se isso não acontecer...? – interrompeu-a o Principezinho, com os seus intensos olhos azuis já lavados em lágrimas – Tenho que encontrar a minha rosa, doutra forma nunca mais serei feliz.
– Olha ao teu redor, já viste quantas flores os teus olhos conseguem alcançar? Estou certa de que iremos encontrar uma rosa tão linda como a tua – acrescentou a Sonhadora, tentando reconfortá-lo.
– Não, não... – respondeu o Principezinho, com a voz trémula e um semblante carregado – Tu és feliz, Sonhadora?
Ela não esperava esta pergunta.
– Sou muito feliz, Principezinho – respondeu ela, de uma forma notoriamente evasiva – Mas porquê? – perguntou, ansiosa.
– Tu não és feliz, Sonhadora. Os teus olhos não mentem... não irradiam paixão. Olha o céu.
– Olho o céu? O que tem o céu?
– Não vês? O céu está apaixonado. Repara na sua cor! – exclamou o Principezinho – Sonhadora, Sonhadora!
– O que foi, Principezinho? – perguntou, assustada.
– Encontrei a minha rosa! – gritou ele, contemplando a sua flor de um modo singularmente apaixonado – Agora é a tua vez, Sonhadora... acorda!

Ela acorda e sorri. A vida está à sua espera!


sábado, 25 de dezembro de 2010

A menina


A menina conta apenas com quatro primaveras. Os seus olhos, de um azul cor do mar e transparecendo a ingenuidade própria da idade, encontram-se fixados no chão poeirento que a rodeia. Uma vez nesta apoiado, o seu rosto aquece a parte superior da estrutura fria em forma de cavalo onde se encontra sentada. O carrossel mantém a sua forma antiga, com o seu movimento a percorrer e a perpetuar gerações divididas entre a alegria de uma infância eterna e o choro de uma realidade entretanto conhecida.

Apesar de não conhecer os segredos que a sua mãe guarda, de uma forma inconsciente ela ainda é capaz de sentir as indecisões maternas que viveu no seu ventre. Por vezes, o carrossel atravessa períodos de alguma turbulência, resultantes das suas frequentes lutas interiores em busca de amor. Mas esse amor que ela tanto anseia, esse amor que ela ainda não compreende, encontra-se à distância de dois dedos. Sentada num banco de jardim pintado de azul, a sua mãe observa-a com o sentimento de ternura mais puro que alguma vez poderá existir.

O momento é de uma beleza inimaginável. Desejo, de uma forma talvez desmedida, que comece a nevar. O sonho é meu, e os flocos de neve, atraídos pela gravidade, misturam-se com o amor que paira no ar. A menina fita o seu olhar nos olhos verde esmeralda da sua mãe, ao mesmo tempo que esboça um tímido e fugidio sorriso.

Respiro fundo e inspiro um pouco da felicidade que se vive neste pequeno ponto do imenso Universo que é o nosso.

Nunca abandones os teus sonhos: eles são a força que faz o carrossel girar e resistir aos momentos de tempestade.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Nobre orgulho


Quando via surgir nela um ego do tamanho do mundo, o seu amor era reduzido a cinzas. O seu sentimento tornava-se tão estranhamente paradoxal, que rapidamente se incendiava dentro de si a vontade de alcançar semelhante ego.

A soberba que, a ela, era latente na maior parte das situações do quotidiano, assumia um estado de explosão incontida quando ele decidia demonstrar por si aquele amor imensurável.

Quantas não foram as noites em que ele, deitado ao luar e com o olhar fixo nas estrelas, reflectiu sobre aquela altivez agridoce que lhe consumia o espírito. Quantas não foram as vezes em que ele, cansado de ceder, decidiu colocar um ponto final numa história cujo começo, aos olhos dela, não fora se não mais que um acaso fortuito.

Mas o ser humano, com a sua desmedida capacidade de resistência ao sofrimento, é capaz de virar o mundo às avessas em busca de alguma esperança. Infelizmente, são demasiadas as vezes em que isto se revela um erro crasso.

Esta história, cujo final até o mais ingénuo será capaz de desvendar, não será a excepção à regra.

No dia em que ela lhe sentiu a falta, no dia em que o seu nobre orgulho se deixou vencer pela crescente carência do seu coração, ele já havia partido.

Por fim, ela chorou. Chorou lágrimas insolentes, mas chorou.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O labirinto


Ela deteve-se diante da entrada do labirinto. O acesso não apresentava mais que dois metros de largura, com o labirinto a estender-se para cada um dos lados até a vista não ter fim. Sou levado a crer que o sol já se havia posto, dada a pouca luminosidade que chegava ao local. Mas, quem sabe, talvez o dia estivesse a nascer.

Ao longe, ouvia-se uma turba ensurdecedora, cuja distância não permitia discernir o som que ecoava no céu. Mais tarde, ela haveria de recordar este momento com a mesma perplexidade com que o vivenciou.

Sem perceber o que a levava a entrar no labirinto, ela não hesitou ao transpor a cabida. As paredes do labirinto eram constituídas por arbustos cerrados desde o solo, com cerca de três metros de altura. Num lugar como este, em que os caminhos estão dispostos de modo a dificultar a saída, seria difícil imaginar alguém deambulando vagarosamente ao sabor do vento. No entanto, era mesmo isso a que se assistia.

Momentos havia em que o silêncio era fantasmagórico, momentos em que, rodeada pela vegetação e sem um rumo definido, ela se sentia estranhamente perseguida. Esses momentos eram permanentemente interrompidos pelo canto dos corvos que sobrevoavam o labirinto, cujas plumagens negras transmitiam ao local uma insígnia ainda mais obscura.

Se imaginar que foram várias as horas despendidas a vaguear naquele dédalo quase infinito, não estarei longe da verdade. A turba, entretanto, não mais se ouviu, e, enquanto percorria os estreitos caminhos que se lhe apresentavam, a sua mente projetava um castelo no cimo de uma montanha. Mais tarde, lembrar-se-ia deste pensamento com um enorme sentimento de incerteza. Estaria a sonhar?

Quando o cansaço já se apoderava do seu corpo, e os seus longos cabelos se mostravam eletrizantes perante a chegada de uma autêntica armada de nuvens intempestivas, eis senão quando a saída surge no seu horizonte. Uma vez alcançada, e para sua incredulidade, um imponente castelo emerge do cimo da montanha mais próxima, aquela situada de frente para o labirinto.

Sem qualquer indecisão dissimulada, ela procura – ofegante – chegar à entrada da majestosa fortaleza. O percurso até lá foi feito por entre as árvores de uma floresta quase mágica, cujo brilho dos seus elementos seduzia a vista de quem se decidisse a atravessá-la. Em pouco mais de quinze minutos, esse caminho já se encontrava percorrido.

Agora, uma vez tão próxima da grandiosa porta de madeira do castelo, ela é atingida por um sentimento de inusitada curiosidade. Esvoaçando horizontalmente, os seus longos cabelos dão vida ao momento, fruto da graciosidade do vento inspirador que se sentia.

Ao transpor a porta, que se apresentava entreaberta, surge – como único elemento – uma escadaria de pedra mármore no centro de um amplo salão. Sente-se, de imediato, impelida a tirar as sabrinas que traz calçadas. Sentindo o chão frio sob a planta dos seus pés descalços, opta por flutuar sobre a centena de degraus que tem pela frente.

Atingido o topo da escadaria, eis que surge, diante de si, algo com o qual já havia sonhado. Sim, estava certa disso.

O pequeno baú de madeira, que não teria mais que um palmo de comprimento, apresentava-se com um aspeto algo desgastado. A meio do artefacto, saltava à vista uma pequena tranca composta por uma diminuta barra. Perante tal pormenor, ela depressa se deu conta de que o interior do baú estaria pronto a ser revelado.

Uma vez descoberto o objeto que guardava, a sua vida mudou para sempre. Tinha, nas suas mãos, a chave do meu coração...



Fotografia de João Miranda.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dois mundos


Era o pombo-correio o responsável pela constante troca de mensagens de amor. Quando um dia a terra se abriu, fruto de um fenómeno hoje tão bem conhecido, mas que naquele tempo ido tanta perplexidade causou, as suas vidas sofreram o maior revés que alguma vez haviam conhecido.

A distância que os separava, desde então, quase que sentenciara o fascinante amor que havia nascido nos seus corações. Ela, habitante do enorme pedaço de terra que se havia deslocado para oeste; ele, ser errante do pequeno pedaço de terra que se havia afastado no sentido oposto.

Perante aquele cenário, perante o afastamento contínuo – relativamente ao ponto de origem – das duas peças daquele estranho puzzle, o pombo tornara-se num meio de comunicação extraordinariamente admirável. Sem ter de atravessar as águas revoltas do novo mar nascido, que todas as embarcações decidia soçobrar, a ave desempenhava o seu trabalho com esmero e tenacidade.

Uma vez que o seu próprio ninho se havia partido em dois mundos, o pombo passava os seus dias num vaivém permanente, tentando, desesperadamente, reencontrar a sua origem.

As mensagens, essas, eram escritas quase à mesma velocidade com que viajavam para as mãos da outra parte. Eram trocadas promessas várias, desejos muitos, saudades infinitas, lágrimas capazes de afogar o mundo... nada escapava à veia literária dos dois amantes, que juravam um ao outro um amor para além do imaginável.

Mas, com o decorrer do tempo, a distância existente entre os dois pedaços de terra foi crescendo. Como consequência desse infortúnio, as travessias do pombo tornavam-se cada vez mais longas, mesmo quando o vento desempenhava um papel de benfeitor. O resultado de tão dolorosa consequência não poderia ser outro: as saudades foram consumindo o espírito de cada um; a distância foi enfraquecendo a pobre ave...

E quando a esperança tendia a extinguir-se, quando os seus corações já só alimentavam cicatrizes resultantes de anos de sofrimento, eis que o improvável toma lugar. Os dois pedaços de terra, após longa viagem em sentidos opostos, voltam a encontrar-se.

No céu, o último voo do pombo é substituído por uma invulgar chuva de estrelas.

Na terra, o primeiro abraço de muitos anos assume o renascer de duas vidas.