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domingo, 3 de junho de 2012

O demónio

E o demónio seguiu-me, como se visse em mim o seu alvo, sendo ele um experimentado predador. Seguiu-me por entre ruas que eu desconheço, por entre ruas que não existem, por entre ruas criadas por si a cada instante, com becos que desembocam em becos, sucessivamente mais estreitos e curtos, fazendo de mim a sua personagem idílica de uma emboscada há muito idealizada. E eu não conto com a ajuda de ninguém, pois sou apenas eu e o demónio, o demónio e eu, como se me encontrasse à deriva num mar encruzilhado, sistematicamente fustigado pela sua fúria demoníaca, à deriva num mar encruzilhado. E eu decido interromper a fuga, pois o demónio não pode ser real, não pode ser real, e o demónio sorri, sibilante, e fixa-me o olhar, o demónio, e a terra arde e ferve por baixo dos seus cascos, e o calor queima-me e consome-me o espírito. E eu pergunto-lhe o que queres, sua traça que tudo corrói, que tudo desfaz, que tudo destrói, que tudo arruína, que tudo perverte. E o demónio olha-me com compaixão, como se de um velho amigo eu me tratasse. E o seu sorriso, inquietante, provocador, nunca se altera. É um sorriso matraqueado, insistente, intemporal. E eu volto costas ao demónio, e as ruas já não são as mesmas. A noite caiu com mão pesada sobre aquele labirinto que é negro como o fundo de um poço, onde já não existe esperança para quem no seu interior tropeçou. E a noite caiu sem estrelas, sem lua, sem sentimento. E eu olho o céu, e vejo o sorriso do demónio, sibilante, omnipresente, omnipotente. E a terra queima sob os meus pés, fervo por dentro como se atingido por uma febre perniciosa. E retomo o passo, depois de uma eternidade que passou naquele instante, preparado para uma eternidade de instantes que há de vir. E corro, agora, no teu encalço, demónio, cujo rasto não são mais que feridas abertas nesta terra, nesta terra que não te pertence, que não é tua. E cravo o meu olhar no teu, demónio, num instante que será eterno, num instante que será somente meu. Aceita o meu sorriso.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tiquetaque

Ela agarrou-se às palavras soltas que viajavam no tempo, a uma velocidade bem superior à da luz. Palavras intemporais, que perpetuavam um ilusório sentimento de existência.

Levantou-se, por entre alguns suores frios que a haviam atormentado nos últimos instantes, e caminhou até à janela.

A lua não estava presente. De facto, pouco importava. A noite estava escura como breu, o vento soprava à força de pulso (divino, quem sabe?).

Os espíritos, em turba, passeavam sem destino naquela noite fria, quais figuras erráticas à procura do seu lugar.

Perante aquele cenário, ela sorriu, ao mesmo tempo que acendeu um cigarro. Receosa de voltar a adormecer e de não mais voltar a acordar, ali se deixou permanecer, cigarro após cigarro.

Viu o sol e a lua jogarem ao esconde-esconde durante dias e noites a fio, num ciclo que se tornou, impetuosamente, vicioso.

Viu nascer as últimas flores, viu os rios e o mar secarem, viu a neve cair incessantemente, derreter e ser devorada pelo inferno sob os seus pés.

Viu o mundo reduzir-se a pó, sem nunca o ter desejado.

E agora? Agora, que a ampulheta da sua vida perdeu a areia que lhe restava, nada mais há a fazer.

Ela apaga o último cigarro, piscando o olho ao sono que lhe trará descanso...

Tiquetaque. O tempo chegou ao fim.


domingo, 22 de abril de 2012

O teu caminho

daqui.
A viagem teve o seu terminus num local onde o rio e o mar confluem sem mágoas.

O ramo de flores que consigo trazia, cujo aroma perfumava a brisa vespertina que se sentia, foi lançado à água com a gentileza própria de uma deidade.

Qual ser divino de carne e osso, ela procurava a expiação redentora de quem já se sentiu perdido neste mundo que parece não ter fim, e que tantas vezes nos leva a cometer erros nos quais não nos revemos.

Juntamente com as flores, seguiram também as suas mágoas, que por um momento foram capazes de asfixiar o rio que naquele mar desaguava.

Com dificuldade, ofegante, o rio tentava - a todo o custo - recuperar a respiração abalada por aquela tormenta de sentimentos que agora lhe corria nas veias.

Foi com estranheza que vislumbrou a imagem refletida na água asfixiada pela sua dor. Era a sua imagem, indistinta, confusa, irreconhecível.

Com o mesmo peso de uma pena voando ao sabor do vento, ela não tardou a colocar um pé e o outro sobre a superfície do rio, caminhando e deixando-se levar pela corrente.

Caminhava, agora, sem medos nem quaisquer pensamentos repressores, à medida que a sua imagem mudava a cada instante em que a corrente escolhia um rumo diferente para seguir.

A noite cai, e o céu ilumina-se para ti. Não tardes a escolher o teu caminho...


sexta-feira, 9 de março de 2012

Um punhado de terra

Ao agarrar num punhado de terra, ela tomou-lhe, ali mesmo, o peso da dor sob os seus pés.

Descalços, caminhavam sobre um solo carregado de solidão, uma terra taciturna e pesarosa por não lhe ter sido dada a oportunidade de dar vida à vida.

De todos os locais inóspitos que havia percorrido, este era, indubitavelmente, o seu local de eleição. As árvores, despidas e deslutradas, vergavam-se à sua passagem. Por mais violento que pudesse parecer, este era  verdadeiramente  um cenário imperdível.

Os seus dedos, imaculados e suaves, acariciavam levemente as flores, que se esticavam para sentir o seu terno aroma feminino.

"Quem sou eu?", pergunta a si mesma.

Não sei quem és, juro que não sei. Apenas te vislumbro ao longe, bem longe. Não sei se estás no céu, ou se, porventura, este recôndito lugar é o inferno.

O sol escondeu-se. "Miserável, não fujas", digo para comigo. Creio que me ouviste o pensamento, porquanto tentas fitar o meu olhar. 

Não sou capaz de te enfrentar. Baixo-me, e agarro num punhado de terra. Posso assegurar-te que sinto a tua dor. 

O teu coração arrisca uma súbita paragem. Cais, de joelhos, na terra humedecida pelas lágrimas que não consegues conter. Prostrada, levas as tuas mãos à cara e choras convulsivamente, choras sem parar por um tempo quase eterno.

O sentimento de impotência é algo inimaginavelmente cruel. Tento, a todo o custo, corrigir esta falta de forças que nos atinge. Sinto a terra a consumir-nos o espírito.

"Quem sou eu?", pergunto a mim mesmo, agora já bem próximo de ti. 

Seguras-me na mão, por fim. 

"Vamos embora. O inferno não foi feito para nós.".


sábado, 19 de novembro de 2011

Subestima


Dei de caras com a Morte num páramo distante. Local inóspito, gelado, de terra árida e consumido pelo tempo. Se em sentido figurado me estivesse a expressar, quem sabe não teria uma história peculiar para expor. Dar de caras com a Morte e estar cá para contar.

Mas não, apesar de ser um fervoroso adepto da tropologia, o que realmente sucedeu foi um encontro fortuito com o esqueleto nu, armado de foice.

E ali estava ela, a Morte, sentada numa cadeira de baloiço de aspecto antigo, absorta em infindáveis cogitações. Creio que não deu pela minha presença, como se de um espírito eu me tratasse. Sentei-me no chão, a alguns metros do "fim da vida", e contemplei-a durante largos momentos, tentando encontrar nela algum rasgo de beleza latente. Tornou-se penoso viver aquele momento mortificante, perante um ser notoriamente abalado, moribundo, desgastado.

A Morte proferia umas quantas palavras soltas, como se por um violento estado febril estivesse a ser atacada. O quão ridículo me senti, por toda a vida ter temido uma figura tão aparentemente inócua.

Ergui-me, e com um misto de sobranceria e compaixão a fervilhar dentro de mim, deixei para trás a Morte. Não foi necessária uma dúzia de metros para que, aleivosamente, a dita cuja se aproximasse de mim e me apunhalasse pelas costas.

A subestima é, sem dúvida, o mais traiçoeiro de todos os sentimentos.


sábado, 9 de abril de 2011

O sítio aonde nos esperam


Laconicamente falando, e observando o cenário em seu redor, era com um sentimento de profundo asco que a maior parte das pessoas olhava para ela. O desgosto pelo bem alheio nunca terá um registo nobre. Ainda assim, permitam-me que vos diga: a inveja desmedida não poderá ser, alguma vez, tolerada.
Porém, por muito que nos custe acreditar, era a isso mesmo que se assistia. Se aos pares se cruzavam com ela, daí a nada, e já de costas voltadas, haveria lugar a uma arenga desdenhosa. Pois bem, a vida é feita de constantes julgamentos, quer estes ocorram nos seus lugares adequados, ou não.
Sem querer dar azo a divagações vãs, foquemo-nos apenas nos factos. Afinal, talvez não fosse o seu estado de graça o causador de tanto ódio e desdém, quantas vezes mal dissimulados. Havia um facto inegável e, igualmente, incontornável. Ela era deslumbrantemente bela. Pois se em terra de cegos, quem tem um olho é rei, então em terra de feios, quem é belo é crucificado.
Estaremos a ser severos? Não creio. A quantas iniquidades poderíamos assistir no seio de um local tão pequeno, onde a impunidade reina a seu bel-prazer?

Assombrosamente bela. Era-o, de facto. E estava apaixonada. Por quem? Não sabemos, mas talvez as boas sensações que o seu coração transmitia, fossem também responsáveis pela utópica perfeição das linhas do seu corpo e da brandura do seu espírito.
No entanto, e ainda que não fosse o seu desejo, a crescente caterva de escarnecedores foi aumentando o protagonismo da jovem musa que, um dia, não conseguindo resistir à constante pressão da sua beleza, se viu obrigada a fugir do local que a viu nascer.
Terá fugido para onde? E será que alguém aguardava a sua chegada? Pois será esse o nosso mais profundo desejo, que alguém a esperasse ansiosamente. Porquê? Porque podemos estar certos de uma coisa: sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Este sono será eterno


Era Primavera, mas a vida não era fácil. As flores não cuspiam pólen, as abelhas não o apresavam.

Carregavas uma cruz aos ombros, mas tão pouco eras Cristo. A terra era inóspita, e nas areias movediças até a alma se via sepultada.

Procuravas o teu lugar, mas as interrogações não te davam tréguas. O céu era laranja, o sol nunca havia antes sido negro.

Sonhavas com um mundo com vida, mas foi este o destino que te foi traçado. O castigo nunca foi justo para quem não é culpado.

Sorris, uma última vez, e fechas os olhos.

Este sono será eterno.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sem destino


De mim voaste para bem longe... com as asas até então minhas...

Sem elas nunca conseguirei encontrar-te, sem elas a viagem torna-se ingrata.

Com uma venda nos olhos é como me sinto, de pés e mãos atados, imóvel e flutuando sobre o oceano, no ponto onde a latitude e a longitude igualam o zero absoluto.

Sinto-me um zero. Um zero no meio do oceano, onde a Lua africana desempenha o papel de inquisidora. “Quem és tu nesse mundo? Não és nada, nada foste, nada serás. Desaparece.”

A prisão desfaz-se, mas nem por isso vislumbro mais que um passo diante dos meus olhos. Sinto o frio do oceano, oceano que vira pulmão de aço para me manter refém do meu próprio destino.

Mas qual destino? Existirá realmente um?

Permanecerá a dúvida... sem destino definido.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Perdido no deserto


O vento queimava-me o espírito, qual fogo capaz de me consumir por dentro. O pensamento ía longe, não deixando lugar a dor ou qualquer expressão de sofrimento. Um corpo perdido no deserto, com o pensamento perdido noutro mundo. Um mundo distante, que nenhum adjectivo conseguiria descrever. Utópico seria o epíteto correcto, numa conjugação de palavras que me fez regressar ao mundo real, permitindo que esse mesmo pensamento, aquele perdido noutro mundo, se perdesse agora por entre a fina areia do imenso deserto. Não te encontro. O meu corpo, errante no deserto, procura-te incansavelmente, num horizonte que ganhou vida e se tornou imortal. E se eu nunca te encontrar? Vagueará o meu espírito, eternamente, por todos os mundos ainda por descobrir, na ânsia de um conforto?