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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Incoerências

Da mesma forma que beber não é compatível com a condução (é fácil de entender porquê), fumar não combina nada bem com a prática de desporto.

Tenho amigos que fumam, naturalmente. Uns até, já crescidos, fumam às escondidas (e isto lembra-me sempre a história do meu cão que, ainda antes de alguém se aperceber da asneira que fez, denuncia a mesma através das orelhas caídas e do ingénuo semblante de culpa).

No entanto, de entre aqueles que fumam, apenas alguns me perturbam o espírito. Refiro-me àqueles que, por hipótese, fumam ene cigarros por dia, correm outros tantos quilómetros por semana, e ainda vão levantar uns pesos ao ginásio (missão cumprida?). Meus amigos, eu pergunto-me: porquê?

Sempre me deixei entusiasmar por paradoxos, o que me traz à memória outra história. A história do homem mais sortudo do mundo, que todos os dias acordava feliz e que, no mesmo instante, dizia para si mesmo: "Eu adoro viver!". Só que acontece que o homem tinha um estranho costume: todos os dias pegava no seu revólver, cujo tambor guardava apenas uma munição, rodava este último como quem roda uma roleta e premia o gatilho com a mesma descontração de quem se espreguiça pela manhã.

Um dia, teve azar.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Animais

Cada vez mais perto daquilo que sempre fomos, sem máscaras ou dissimulações. Somos animais, continuaremos a sê-lo. Quão paradoxal poderá ser aquela notícia em particular que nos chocou, se tivermos em conta que, na nossa essência, não passamos de animais, espécie dominante num planeta que (graças a deus?) permitiu a existência de vida?

Julgamo-nos seres especiais, por vezes predestinados, porque assim a vida é mais fácil. Tudo assumimos, sem questionar, e porque não? Pensar cansa, dirão alguns. Sonhar, agir, amar, lutar por aquilo que é certo, tudo cansa, naturalmente.

Por essas e por outras razões, a maioria de nós prefere nada fazer (il dolce far niente, quiçá). A velocidade com que surgem as interrogações, é a mesma com que se desvanecem.

De machete em punho, talvez fossemos capazes de desbravar algum terreno, de mostrar a uns quantos que não vale tudo neste jogo, de mostrar que, por vezes, um sorriso (sincero?) tem que se esforçar para tocar o céu. Doutra forma, de animais nunca iremos passar.

Fala-se em desumanização com alguma substância, em discursos ingénuos de quem não conhece a realidade do nosso mundo. Somos animais governados por animais num reino animal, à semelhança da alegoria de George Orwell.

E desenganem-se aqueles que acreditam na existência de uns quaisquer santos cuja missão é a de nos salvar. 'Cause there are no saints in the animal kingdom. Only breakfast and dinner.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vaticínios

Sónia Guerreiro
Parar. Pensar. Refletir.

Naquilo que deixámos de fazer, mas que nos tornava superiores. Naquilo que fazemos, apenas porque sim. Naquilo que deixamos por fazer, porque a inércia é mais forte que nós.

Não caminhamos para novos, qual verdade de La Palice.

O coração, quérulo, respira fundo, ao mesmo tempo que pede um novo fôlego.

Os segundos parecem ora passar devagar, ora passar depressa, demasiado depressa. Curiosamente, alguém me disse que passam sempre com a mesma cadência, como as gotas que caiem de uma torneira mal fechada. Não sei se hei de acreditar, pois ainda agora pareceu-me ver o tempo parar.

E, com o tempo parado, consigo ver o futuro. E, deixa que te conte, é deveras estranho veres-te num tempo que ainda não passou, que ainda está por vir, a rasgar o racional que existe em ti e que te ordena a acordar, pois de um sonho não poderá passar.

Um sonho viciador, como uma droga que nos corre nas veias e que nos arrebate o espírito, que nos impele a respirar fundo com o coração, a agarrar no tempo com as duas mãos, mãos sofridas pelo áspero labor do quotidiano, e a mandá-lo para trás das costas.

O futuro? Nunca o verás através de uma bola de cristal. O futuro está diante de ti, a cada segundo que passa, ora devagar, ora depressa... demasiado depressa.


domingo, 23 de setembro de 2012

Sem tempo

Disseram-me que eu tinha apenas cinco minutos para escrever. Irritei-me. Exasperado, gritei, praguejei, insultei Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Somos levados a crer que o tempo cura tudo. Cura? Mesmo? Aquilo que o tempo faz não é magia, como se de um mágico se tratasse, e também não é o remédio para nada, assumida a personificação de um curandeiro. O tempo apenas nos coloca, a cada segundo que passa, mais perto do nosso destino.

E se a verdade custa a ser aceite, então nada mais haverá a fazer que esperar. Pois o tempo tudo cura, ou não?

Momentos há, na nossa vida, em que o tempo simplesmente pára. E esses momentos, não são mais que feridas curadas por um tempo que não passou, não são mais que as cicatrizes da nossa memória.

O relógio já marca dez minutos desde há pouco. Maldito sejas, tempo.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

O coração do nosso mundo

daqui.
Quando a música começou a tocar, aquela música que sempre me embalou o espírito, a paisagem assumiu um aroma agridoce. Os pássaros sobrevoavam aquele imenso campo bem lá no alto, tão alto que pareciam ser do tamanho de formigas, em círculos perfeitos que não o chegavam a ser.

O céu estava tingido de um laranja que eu nunca tinha presenciado, nunca, um laranja que tocava o horizonte e contagiava toda a terra ao seu redor. Era um laranja que enchia de sensibilidade aqueles que se encontravam desprovidos dela, emocionando todos os demais. Poderá, um momento destes, ser real? 

Os pássaros voavam ao sabor da música, aquela música que não era agridoce, mas simplesmente doce. O calor, o calor que se fazia sentir era bafejado por uma brisa fresca vinda das poucas árvores que me rodeavam. Senti-as felizes, e não o estranhei. Quando a essência dos seres nos toca o coração, somos capazes de ver a vida pintada com as cores do arco-íris. E a vida, assim, é sobejamente bonita.

Deito-me na terra, e olho o céu  uma vez mais. Fixo o meu olhar num ponto distante, e sorrio. Começa a cair uma chuva miudinha, muito miudinha, que por momentos me arrefece o espírito. Sinto o coração do nosso mundo a bater, cadenciado, numa harmonia perfeita. 

A natureza, dentro de mim, ardente, ébria, chama pelo meu nome. A música não pára, e eu sou, uma vez mais, verdadeiramente feliz.


sábado, 26 de maio de 2012

Tempo

A vida é curta. Não me façam crer o contrário. Vivêssemos nós mil anos, e ainda assim seria curta.

Mais curta ainda, porque não lhe conhecemos o fim, o dia em que o eu deixa de ser eu, passando a ser, apenas, um vazio silencioso.

Mas ainda bem que assim o é, pois doutra forma, que vida infeliz seria a nossa, lutando contra o tempo perante o impiedoso calendário daquela a quem chamamos morte.

E não havendo forma de contornar o tempo, apenas se me afigura uma única forma de estar: viver e ser feliz, sem nunca baixar a guarda.

Pois no dia em que me surgires com o calendário na mão e um sorriso vadio nos lábios, dizendo-me que o tempo se encontra instável, e que assim se encontra o meu estado de espírito, prepara-te...

...a caçadeira irá estar carregada.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ensaio sobre o Arrependimento

Serei breve.

De cada vez que ouço (ou leio) alguém dizer algo como "só me arrependo do que não faço", uma nuvem de interrogações paira, de imediato, sobre a minha cabeça.

É verdade que serei suspeito, pelo facto de não ser, propriamente, um fã de máximas. Ainda assim, uma máxima carregada de tanta arrogância, presunção e pretensiosismo na sua essência, naturalmente que nunca se encaixaria na minha caixinha das denominadas "frases feitas".

Para agravar ainda mais o cenário da "bela" máxima, atendamos à origem e significado de "arrependimento":

Do grego μεταμέλεια - Metanóia (Meta=Mudança, Nóia=Mente), arrependimento significa "Mudança de Mentalidade".

Quer isto dizer, então, que eu apenas admito mudar de mentalidade, relativamente àquilo que não fiz? Mais uma nuvem de interrogações...

Posto isto, se alguém me conseguir demonstrar que o aparente antagonismo de uma frase como "só me arrependo do que não faço" é simplesmente má interpretação da minha parte, cá estarei para me arrepender...

... do que (não) escrevi.



"O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo.", Honoré de Balzac.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

O monstro

daqui.
Abres a porta de casa, lentamente. Deste conta, ainda do lado de dentro, que ali passava um vento corrosivo, um vento que te injuriava, que te lançava blasfémias de todo o tipo, a toda a voz.

Ficaste, quiçá, estupefacto, ou talvez não. Num ímpeto de indisfarçada raiva, levantaste a tua perna direita no ar, até esta perfazer um ângulo de noventa graus com a coxa. No mesmo instante, e com uma violência sobre-humana, lançaste o teu pé ao solo, na esperança de reprimir as palavras que se faziam ouvir.

O mundo estremeceu. O vento não mais se pronunciou.

O clima que se vive é absolutamente singular. As aves que ali se encontravam, nas redondezas, todas elas voaram para bem longe. Desces os três degraus do alpendre para o jardim, sob o olhar atento de um silêncio que nunca, alguma vez, se fez sentir naquele local.

Inspiras, com a indelicadeza que te é característica, o ar inerte que te sufoca. Inspiras com violência, não te sentisses tu o ser mais irascível à face da Terra.

Olhas ao teu redor, o mundo parece acabado. Pesaroso, avanças pela rua fora, sem qualquer pensamento sobre o destino que almejas.

Cospes para o chão, à medida que a estrada ganha uma infinitude quimérica. Sentes-te prisioneiro de um mundo que não é teu, e que ao mesmo tempo procuras destruir.

Tu és o monstro que habita em mim.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Um punhado de terra

Ao agarrar num punhado de terra, ela tomou-lhe, ali mesmo, o peso da dor sob os seus pés.

Descalços, caminhavam sobre um solo carregado de solidão, uma terra taciturna e pesarosa por não lhe ter sido dada a oportunidade de dar vida à vida.

De todos os locais inóspitos que havia percorrido, este era, indubitavelmente, o seu local de eleição. As árvores, despidas e deslutradas, vergavam-se à sua passagem. Por mais violento que pudesse parecer, este era  verdadeiramente  um cenário imperdível.

Os seus dedos, imaculados e suaves, acariciavam levemente as flores, que se esticavam para sentir o seu terno aroma feminino.

"Quem sou eu?", pergunta a si mesma.

Não sei quem és, juro que não sei. Apenas te vislumbro ao longe, bem longe. Não sei se estás no céu, ou se, porventura, este recôndito lugar é o inferno.

O sol escondeu-se. "Miserável, não fujas", digo para comigo. Creio que me ouviste o pensamento, porquanto tentas fitar o meu olhar. 

Não sou capaz de te enfrentar. Baixo-me, e agarro num punhado de terra. Posso assegurar-te que sinto a tua dor. 

O teu coração arrisca uma súbita paragem. Cais, de joelhos, na terra humedecida pelas lágrimas que não consegues conter. Prostrada, levas as tuas mãos à cara e choras convulsivamente, choras sem parar por um tempo quase eterno.

O sentimento de impotência é algo inimaginavelmente cruel. Tento, a todo o custo, corrigir esta falta de forças que nos atinge. Sinto a terra a consumir-nos o espírito.

"Quem sou eu?", pergunto a mim mesmo, agora já bem próximo de ti. 

Seguras-me na mão, por fim. 

"Vamos embora. O inferno não foi feito para nós.".


domingo, 29 de janeiro de 2012

Livro do Desassossego

Enquanto lia o "Livro do Desassossego", desassossegado fiquei.


"Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles. Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação me estorvou a sequência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.", Fernando Pessoa.

Sublime...


Génios, Fernando Pessoa e o nosso país


Não fosse a existência de uma série de mentes brilhantes – os proeminentes génios do seu tempo –, ao longo da nossa história enquanto espécie dominante no nosso planeta, provavelmente ainda estaríamos, neste momento, a saltar de ramo em ramo numa qualquer longínqua e ancestral floresta africana.

No nosso passado recente enquanto seres humanos, facilmente se identificam os génios que, de uma forma ou outra, contribuíram para a evolução da nossa espécie. Não valerá a pena enunciá-los, nem tão pouco enumerá-los. Face aos milhões e milhões de pessoas que povoaram a Terra nos últimos dois milénios, os sobredotados terão sido uma ínfima parcela desse número.

Posto isto, não será difícil imaginar o desfecho de uma história sem génios. E, a uma escala mais reduzida, imaginar o destino de um país onde se abrem as portas e se convidam os seus melhores recursos a ir para bem longe.

Escreveu, Fernando Pessoa, que "A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio.".

Pior que não saber como produzir homens de génio, é permitir que a nossa sociedade se afunde num mar sem terra à vista, ferindo de morte os apreciadores de arte e deixando a plebe morrer à fome.

"Este país não é para velhos", diria Cormac McCarthy. Eu digo mais: este país não é para nada.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dentro de nós

"A nossa única defesa contra a morte é o amor", disse, um dia, um génio português (escritor).

Quantos de nós não nos esquecemos, em algum momento das nossas vidas (admitindo que não se trata de um esquecimento permanente), da importância do amor como solução e defesa para tantas adversidades?

Não tenho dúvidas no que respeita ao facto de não existir um paradigma da felicidade (ou do amor). São tantos, e tão variados, os fatores que moldam a nossa postura perante a vida, que tentar justificar a felicidade de alguém por meio de um silogismo, por exemplo, seria  notoriamente – absurdo.

Ainda assim, custa-me  sou-vos honesto – perceber o porquê da obsessão concertada de muita gente, em conseguir atingir certos objetivos sem olhar a meios, sem qualquer amor naquilo que fazem (e, quantas vezes, com a morte à espreita...).

A morte é invisível. Não a sentimos  ainda que, de quando em vez, haja lugar a inusitados pressentimentos , embora ela possa estar bem junto de nós. Por outro lado, acreditar que o amor é visível é um pensamento lírico. O amor existe nas nossas vidas, sob diversas formas, com diferentes intensidades, assumindo sempre a invisibilidade necessária para não se tornar material.

E é por isso que o amor vence sempre, mesmo quando a morte é o opositor a enfrentar.

Quando, um dia, percebermos o sentido da vida (se esse dia chegar), poderá ser tarde de mais. No entanto, não terá sido em vão.

Não nos esqueçamos que "A finitude é o destino de tudo. O Sol, um dia, apagar-se-á" (o escritor tinha razão).

Não vamos esquecer o amor, pois a morte não se esquecerá de nós.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ámen

Há muito que ela não olhava o céu. Admirava-o, com complacência, como se da primeira vez se tratasse. Pensava, para si mesma, que se fosse possível personificá-lo, este seria, muito provavelmente, o maior sábio de todos os tempos. Uma enciclopédia viva da história humana, capaz de revelar os mais ínfimos pormenores da nossa evolução, da nossa história passada e presente.

Nesse instante, após descer à terra, porquanto os seus pensamentos já nas nuvens vagueavam, ocorreu-lhe que o céu, para muitos, continua a ser considerado a morada de deus. E o que para muitos é uma crença, para outros tantos não passa de uma simples falácia.

Uma falácia, não por ser sua intenção desacreditar a existência de deus, mas simplesmente porque este não pode morar num local donde se podem observar guerras constantes, atrocidades várias, crueldades desmedidas.

Quem ali vive, terá que viver, forçosamente, em permanente exasperação. Porque, muito honestamente, a ela custa-lhe imaginar um deus sentado numa nuvem, impávido e sereno, enquanto milhões dos seus filhos (deus nosso pai, não é verdade?) se matam e passam fome.

Ela há de descobrir onde moras, deus nosso senhor. E, nesse dia, quem sabe se tu próprio não cairás em tentação.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A alegoria que nunca o foi

Nasceu sozinho. Teve frio e chorou. Por pouco tempo, no entanto, pois depressa o calor materno o aconchegou.

Daí a nada, deu três passos e caiu. Nasceu com pressa de crescer. Ria, ainda sem dentes, de mãos coladas no chão. Levantou-se e olhou em frente.

Ao longo da vida, perdemos a conta às pequenas batalhas que vamos travando com aquilo que nos rodeia. Ideias que nos abalam, convicções derreadas, caminhos trocados que nos deixam aturdidos. 

Desconhecidos, família, amigos, amores e desamores. Todos eles, sem exceção, com maior ou menor relevância, contribuem para a definição de nós mesmos. Mas existirá, ainda assim, uma fórmula que defina quem somos?

Olhou em frente. Viu o mar e chorou. Teve frio. Desta vez, por um tempo talvez eterno. Lançou-se à água, nadou sem parar. Agarrou-a por um braço, trazendo-a consigo até terra.

Abraçou-a com força, por um tempo talvez efémero. Levantou-se. Daí a nada, deu três passos e caiu.

Não mais se ergueu.

Se não te deixares guiar pela sensibilidade que existe dentro de ti, a vida não será mais que uma ilusão paradoxal, uma alegoria que nunca o foi.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perfectus

O mundo funciona quando gostamos uns dos outros. Mas também funciona quando os sentimentos são substituídos por artimanhas, jogadas, estratagemas. Funciona quando imprimimos amor àquilo que criamos, mas também funciona quando somos apenas marionetas no meio de virtuosos espectáculos de hipocrisia.

Não consigo conceber um conceito para "mundo perfeito". Talvez seja uma tarefa utópica, quiçá paradoxal, ou então apenas fora do alcance da minha modesta compreensão. Bem, talvez seja algo realmente inatingível.

Poderá o meu bem-estar e felicidade condicionar, de alguma forma, o bem-estar e felicidade dos outros? Certamente. Não será necessário enunciar exemplos sobejamente conhecidos para consubstanciar tal raciocínio. E é assim que o meu conceito de "mundo perfeito", aquele que eu não consigo conceber, cai por terra. Simplesmente porque, um "mundo perfeito", não existe: é irrealizável, é inconcretizável.

Como resultado desta breve reflexão, o meu ateísmo fica ligeiramente abalado. Afinal, o nosso "mundo imperfeito" poderá mesmo ter sido criado pelo deus de todos nós, aquele que, para alguns, é o "deus perfeito". Já o contrário... bem, o contrário não teria sido possível.

Porquê? Deixo ao vosso critério.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Epílogo

Escrevi sobre florestas de mil árvores. Escrevi sobre desertos longínquos, sobre moinhos em noites de nevão, sobre viagens pelo infinito.

Muitas foram as vezes em que escrevi sobre deus e o diabo, sobre o céu e as trevas, sobre o destino e a eternidade. Muitas foram as vezes em que terei sido amaldiçoado, outra tantas abençoado.

Quase sempre escrevi sobre o amor, sobre a vida, sobre a felicidade. Tantos foram os abraços trocados, os beijos sentidos, os olhares apaixonados.

E se escrevi sobre a vida, também sobre a morte escrevi. E não há que ter vergonha de temê-la: é a nossa natureza.

Foram muitos os encontros e desencontros. Sentimentos, muitos, alvo de minuciosas reflexões.

O Universo nunca foi esquecido. Quantas estrelas não se cruzaram no nosso caminho, em pequenas jornadas literárias sobre sonhos por realizar.

O sol. A lua. O mar. A amizade. E o amor sempre presente.

Este é o epílogo de uma era repleta de tudo.


sábado, 19 de novembro de 2011

Subestima


Dei de caras com a Morte num páramo distante. Local inóspito, gelado, de terra árida e consumido pelo tempo. Se em sentido figurado me estivesse a expressar, quem sabe não teria uma história peculiar para expor. Dar de caras com a Morte e estar cá para contar.

Mas não, apesar de ser um fervoroso adepto da tropologia, o que realmente sucedeu foi um encontro fortuito com o esqueleto nu, armado de foice.

E ali estava ela, a Morte, sentada numa cadeira de baloiço de aspecto antigo, absorta em infindáveis cogitações. Creio que não deu pela minha presença, como se de um espírito eu me tratasse. Sentei-me no chão, a alguns metros do "fim da vida", e contemplei-a durante largos momentos, tentando encontrar nela algum rasgo de beleza latente. Tornou-se penoso viver aquele momento mortificante, perante um ser notoriamente abalado, moribundo, desgastado.

A Morte proferia umas quantas palavras soltas, como se por um violento estado febril estivesse a ser atacada. O quão ridículo me senti, por toda a vida ter temido uma figura tão aparentemente inócua.

Ergui-me, e com um misto de sobranceria e compaixão a fervilhar dentro de mim, deixei para trás a Morte. Não foi necessária uma dúzia de metros para que, aleivosamente, a dita cuja se aproximasse de mim e me apunhalasse pelas costas.

A subestima é, sem dúvida, o mais traiçoeiro de todos os sentimentos.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Guerreiro incansável


Era um pensamento que lhe paralisava todas e quaisquer vontades, que lhe encobria todas e quaisquer visões sobre o futuro. Na sua cabeça, apenas um conceito reinava: o tempo estava a acabar.
Havia sido um Guerreiro incansável toda a sua vida, verdadeiro Herói em tantos momentos próprios de realidades absolutamente desvirtuadas. Uma vez feita justiça, motivo de orgulho para a maior parte, fomento de ódio para alguns.
Há século e meio atrás, disse um génio literário russo que se queres vencer o mundo inteiro, vence-te a ti mesmo”. Estou crente que é essa a batalha que, neste preciso momento, é travada pelo Guerreiro incansável. Não será, indubitavelmente, uma batalha fácil de vencer: esta dura há já uns anos, embora com o inimigo a fraquejar violentamente nos tempos mais recentes.
Antes da batalha vencida, o Guerreiro incansável já conseguiu, no entanto, domar o seu irredutível pensamento. O tempo não será eterno, não o é para ninguém, bem o sabemos. Contudo...
...as suas histórias, as suas aventuras... ainda terá que as contar aos seus netos!


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dogmas, convicções e verdades absolutas


Um dia, acordarás após uma longa e desconcertante reflexão. Para quê uma vida baseada em dogmas, quando é tão simples questionar as coisas?
Explica-me o porquê de viveres prisioneiro de verdades absolutas, verdades que tu nem sequer tens a capacidade de compreender?
Para quê viver mergulhado em convicções sem substância, convicções que tu não és capaz de defender?
Não, não necessitas do coeficiente de inteligência de um génio. Afinal, será preciso tanto para aspirar a uma vida diferente da de um rebanho que apenas segue as ordens do seu pastor?
Questiona-te. Procura o porquê das coisas. Não acredites em tudo o que ouves, em tudo o que vês. A ingenuidade poderá ser-te útil em algumas ocasiões da tua vida, mas certamente que a ignorância não será a tua melhor conselheira nos momentos mais complicados. Procura o equilíbrio no mundo que te rodeia, no sentido que almejas para a tua vida. Não sejas céptico em relação ao que desconheces: o desconhecido não terá que ser, forçosamente, aterrador nem, tão-pouco, quimérico.
Procura o amor que fará de ti uma pessoa melhor. Nunca desistas de o encontrar. Poderás não saber o dia em que tal irá acontecer, e a espera poderá parecer eterna...
...mas, uma coisa é certa: à medida que o tempo for passando, estarás cada vez mais perto desse momento.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

A tua ferida aberta


Maldita traição. Surgiu, inesperadamente, com pezinhos de lã. Uma traição assim, não sei se custará mais a suportar. Dói no coração, dói no espírito, dói no âmago do nosso ser.
Sorrateiramente, foi ganhando forma com o florescer de mentiras que não quiseste ver. Traição matreira, qual raposa à espera do momento em que o coelho coloca as orelhas fora da toca.
Velhaca. Foi uma traição verdadeiramente velhaca, que nunca, em momento algum, te ofereceu motivos para desconfiança. Como foi possível teres sido ludibriado com tamanho requinte? Neste momento, choras. Porquê? Para quê? Com que intuito? Amor próprio ferido? Ou, quem sabe, ódio efervescente?
Sim, eu sei. Irascível é como te sentes. Aprende a dominar a tua ira. Doutra forma, é como se andasses de óculos escuros e bengala à beira de um precipício: certamente não chegarás a bom porto.
Não, não há nada a fazer. Retira, para ti, a moral da história, e aproveita para olhar em frente de cabeça erguida. Como foi dito um dia, “cometem-se muito mais traições por fraqueza, do que em consequência de um forte desejo de trair”.
Portanto, dá o exemplo e sê forte. Não cedas, tu mesmo, a nenhuma leviana e vingativa traição.