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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ámen

Há muito que ela não olhava o céu. Admirava-o, com complacência, como se da primeira vez se tratasse. Pensava, para si mesma, que se fosse possível personificá-lo, este seria, muito provavelmente, o maior sábio de todos os tempos. Uma enciclopédia viva da história humana, capaz de revelar os mais ínfimos pormenores da nossa evolução, da nossa história passada e presente.

Nesse instante, após descer à terra, porquanto os seus pensamentos já nas nuvens vagueavam, ocorreu-lhe que o céu, para muitos, continua a ser considerado a morada de deus. E o que para muitos é uma crença, para outros tantos não passa de uma simples falácia.

Uma falácia, não por ser sua intenção desacreditar a existência de deus, mas simplesmente porque este não pode morar num local donde se podem observar guerras constantes, atrocidades várias, crueldades desmedidas.

Quem ali vive, terá que viver, forçosamente, em permanente exasperação. Porque, muito honestamente, a ela custa-lhe imaginar um deus sentado numa nuvem, impávido e sereno, enquanto milhões dos seus filhos (deus nosso pai, não é verdade?) se matam e passam fome.

Ela há de descobrir onde moras, deus nosso senhor. E, nesse dia, quem sabe se tu próprio não cairás em tentação.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Perfectus

O mundo funciona quando gostamos uns dos outros. Mas também funciona quando os sentimentos são substituídos por artimanhas, jogadas, estratagemas. Funciona quando imprimimos amor àquilo que criamos, mas também funciona quando somos apenas marionetas no meio de virtuosos espectáculos de hipocrisia.

Não consigo conceber um conceito para "mundo perfeito". Talvez seja uma tarefa utópica, quiçá paradoxal, ou então apenas fora do alcance da minha modesta compreensão. Bem, talvez seja algo realmente inatingível.

Poderá o meu bem-estar e felicidade condicionar, de alguma forma, o bem-estar e felicidade dos outros? Certamente. Não será necessário enunciar exemplos sobejamente conhecidos para consubstanciar tal raciocínio. E é assim que o meu conceito de "mundo perfeito", aquele que eu não consigo conceber, cai por terra. Simplesmente porque, um "mundo perfeito", não existe: é irrealizável, é inconcretizável.

Como resultado desta breve reflexão, o meu ateísmo fica ligeiramente abalado. Afinal, o nosso "mundo imperfeito" poderá mesmo ter sido criado pelo deus de todos nós, aquele que, para alguns, é o "deus perfeito". Já o contrário... bem, o contrário não teria sido possível.

Porquê? Deixo ao vosso critério.


segunda-feira, 28 de março de 2011

A mensagem


"Quando os viu, enfim, abraçados, Deus aplaudiu a tenacidade que se respirava no ar". Mas já lá vamos...

Estávamos no Verão. Viviam-se dias de pura felicidade, com calor na medida certa. Ela encontrava-se sozinha em casa, a contar os minutos para sair à rua. Vestiu o melhor vestido que tinha no seu guarda-roupa e soltou os seus longos cabelos morenos. Por fim, agarrou no seu batom preferido e pintou os lábios.

Por esta altura, ele já se encontra a caminho. O percurso que ainda tem pela frente é longo, mas isso pouco importa. Traz dentro de si a leveza de quem ama a vida, a inocência de quem nada teme.

Combinaram encontrar-se num farol de terra, local bem conhecido dos dois. Situava-se num dos pontos mais altos daquela pequena e tranquila cidade costeira, com vista para o outro lado do oceano.

Quando o relógio dela avisou ter chegado o momento para sair de casa, quando o Sol não estava longe de se pôr, o mundo desabou sobre aquela simpática localidade. O céu rapidamente se pintou de negro, tal era o número de nuvens tempestuosas. No instante seguinte, choveram do céu raios e trovões aos milhares, dando lugar ao espectáculo mais insólito que alguma vez aquele local havia presenciado. A chuva começou a cair impetuosamente, deixando no ar um aroma a dilúvio.

À porta de casa, ela olha o céu e inspira bem fundo. Sai a correr, com um sorriso bem rasgado nos lábios. Pelo caminho, em direcção ao farol, acaba por deixar para trás o calçado que trazia, correndo descalça e sentindo no corpo a chuva quente que, obstinadamente, não cessava. Desde que saíu de casa, não passaram, seguramente, mais que dez minutos até que alcançasse a imponente construção. Subiu as escadas com vigor, aproximando-se, em seguida, do enorme foco luminoso, assegurando-se que a cobertura que anteriormente ali havia colocado estava nas melhores condições. E assim era.

Sofrendo na pele, igualmente, a inusitada tempestade, ele procura - a todo o custo - vencer a distância que ainda o separa do farol.

No momento em que o dia, finalmente, dá lugar à noite, ela liga o potente projector de luz. No céu, sob o olhar atento de Deus, lê-se, projectada, uma mensagem que servirá de inspiração ao que resta do caminho que ele ainda tem para percorrer.

Uma vez alcançado o farol, após uma corrida que parecia não ter fim, ela corre para os seus braços.

Quando os viu, enfim, abraçados, Deus aplaudiu a tenacidade que se respirava no ar.

Ele olha o céu e pisca-Lhe o olho. Nos seus olhos brilha, reflectida, a mensagem representada no firmamento: "Até que a morte nos separe!".


terça-feira, 21 de setembro de 2010

O erro de Deus


Ele esperou por ela à janela. Esperou dias, meses, anos, uma vida inteira. Esperou até ficar bem velhinho, e o corpo se render a um imperativo a que chamamos morte. Não obstante, Deus restituiu-lhe a juventude e deu-lhe a possibilidade de voltar à Terra, no pressuposto de ver cumprido o seu desejo mais antigo: descobrir o verdadeiro poder do amor. Desde que havia criado o dia e a noite, o céu e a terra, o Sol e a Lua, a água, as plantas, as árvores, os peixes, as aves e os restantes animais, desde o dia que havia criado o Homem, Deus questionava-se sobre algo que, amarguradamente, desconhecia.

Após uma tentativa falhada, algo que nunca antes tinha ocorrido, Deus voltou a arregaçar as mangas e, em seguida, pôs mãos à obra. Desenhou o melhor desígnio que se achava capaz de projectar, colocando a pobre alma de novo na Terra e ressuscitando-a num lindo bebé.

O destino que lhe cabia era simples: ter uma infância perfeita, com uns pais e amigos perfeitos, numa escola perfeita, com a educação perfeita, na cidade perfeita. Aos dezoito anos, e partindo do pressuposto de que os Seus divinos cálculos, desta vez, não falhariam, o rapaz iria conhecer a sua cara metade, a sua alma gémea, a sua musa inspiradora. Aos dezoito anos, o rapaz iria conhecer o verdadeiro amor, permitindo a Deus a descoberta de algo que, apesar de se apresentar como Sua criação, transcendia a Sua compreensão.

E assim foi. Ou talvez não...

O rapaz cresceu forte, determinado, ambicioso. Aos seis anos já lia Tolstoi, aos dez anos praticava natação, futebol e judo, aos catorze anos já assumia um compromisso sério, aos desasseis anos cometia a sua primeira traição. Aos dezoitos anos entrava na melhor faculdade da cidade, aos dezoito anos tornava-se uma pessoa altiva, arrogante e preconceituosa, aos dezoito anos colocava termo a um namoro repleto de infidelidades. Deus sentia-se um ser errático perante aquele cenário que, salvo melhor juízo, considerava repulsivo.

Contudo, Deus acreditava ser ainda possível ocorrer uma mudança positiva. Deus estava crente de que, uma vez mais, os Seus cálculos haviam fracassado. Mas a vida é longa, e tempo foi algo que nunca Lhe faltou. E Deus, portanto, esperou.

Mas terá esperado em vão?

Aos vinte e um anos, o rapaz concluiu o seu curso. Aos vinte e um anos, ainda que dando seguimento aos seus estudos, o rapaz iniciou, igualmente, a sua carreira profissional. Aos trinta anos, com um considerável sucesso alcançado já como empreendedor, e após algumas relações mal sucedidas, o rapaz, agora homem, empenha-se no objectivo de constituir família. Aos trinta e cinco anos decide casar com uma mulher que não ama, e aos trinta e sete anos tem o primeiro filho da mulher que não ama. Aos trinta e sete anos, as traições multiplicam-se. Aos quarenta anos, o homem recorda a infância com saudade. Não se lembra da última vez que jogou futebol com os seus amigos, não se lembra da última vez em que foi feliz. Se alguma vez o foi de verdade.

Aos quarenta e cinco anos, viciado inveterado do álcool e do tabaco, o homem reencontra Deus no céu, após ter sido vítima de um ataque cardíaco fatal, momentos após se ter deitado ao lado da mulher que não ama.

Deus foi ingénuo. Deus, ao ver o homem perante Si, não foi capaz de conter o choro do desalento.

A obsessão de uma vida perfeita, induzida na mente da pobre alma, levou ao simples esquecimento do propósito que nos coloca neste belíssimo grão de areia do vasto deserto que é o Universo: sermos felizes!

O verdadeiro poder do amor não está nas mãos de Deus, mas sim nos nossos corações.

Deus errou. E nós, também.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Falls Church: a Estória do Assassino


Sorumbático, o assassino caminhava pela West Broad Street da pequena cidade de Falls Church, no Estado Americano de Virgínia. Dirigia-se para o lado Este da povoação, afectado por um estranho sentimento de repugnância por si mesmo.

Havia cometido um crime hediondo, pelo qual já havia nutrido um enorme orgulho. Neste momento, era acometido por uma repulsa sem fim, procurando a todo o custo a redenção junto de Deus. Mas Deus não o queria perto de si.

Em cada cruzamento que se apresentava no seu caminho, aí estava o Diabo a espreitá-lo, a medir os seus movimentos, a sentir o seu cheiro fresco de homicida.

Ainda que o assassino tivesse perdido os seus óculos, e a sua miopia não o ajudasse a discernir um abeto de um cipreste a uma distância de dez metros, este já tinha percebido que não se encontrava sozinho na então solitária e estranhamente fantasmagórica Falls Church.

Enquanto o Sol se punha, e perante o olhar atento do Todo-poderoso, o Diabo propõe a si mesmo o jogo do “gato e do rato”. Há muito que ansiava por um pouco de diversão, e eis que este momento se afigurava magistral para o efeito.

O assassino acaba de avistar um vulto na esquina da North Fairfax Street. Quase que instantaneamente, o Demónio procura esconder-se atrás de uma árvore de porte médio. De fora fica apenas a sua cauda sibilante, cortando o vento melodiosamente.

Assustado, e julgando estar a delirar, o assassino empreende uma fuga rápida pela Lawton Street, tentando – desesperadamente – chegar ao Falls Church Park e ao seu denso, embora diminuto, bosque.

O Diabo, não dispondo do dom da ubiquidade, prontamente assume o papel de gato, procurando alcançar avidamente a sua presa.

O assassino chega ao Falls Church Park com os bofes de fora, ofegando descompassadamente. Com um revólver de calibre trinta e oito na mão direita, recorda-se, a custo, do crime cometido há uns dias atrás. Parece conseguir, por momentos, sentir o aroma do salitre, do enxofre e do carvão, numa composição explosiva que denominamos de pólvora. Esta breve sensação deixa-o sombriamente empolgado, desejando voltar a avistar o vulto de há pouco.

Apercebendo-se da existência do revólver, e temendo pela sua vida, uma vez que de carne e osso também é feito, o Diabo prepara uma verdadeira cilada ao assassino. Com garras de felino, sobe sorrateiramente ao topo do freixo mais alto do bosque. Enquanto isso, o assassino puxa para fora o tambor do seu revólver, conferindo o número de munições: depois do frenesim de há dias, apenas lhe sobraram duas.

A uma distância de vinte metros do solo, o Demónio deixa escapar um sorriso diabólico, ao mesmo tempo que parte silenciosamente um ramo e o atira para junto da base da árvore, procurando trazer até si o assassino.

Ao ouvir o barulho causado pelo impacto do ramo no chão do bosque, o assassino aponta o revólver para o ar, puxa o cão atrás e prime freneticamente o gatilho, numa clara tentativa de amedrontar o vulto escondido.

Pois o projéctil, quem sabe por inspiração divina, rasga o ar na precisa direcção do Diabo, que se encontrava aninhado no ramo mais alto do freixo.

Diz quem sabe, por inconveniente conhecimento de causa, que se assemelha a uma picada de agulha. Pois terá sido o Diabo, certamente, presenteado com diferente dor, visto que quando a bala rompe por completo o tendão de aquiles do seu pé esquerdo, um grito lancinante irrompe do Falls Church Park, prolongando-se até ao momento em que este se estatela no solo.

O assassino, estupefacto, aproxima-se da Besta, com um olhar febril e experienciando uma friúra interior imensurável. O Diabo geme com dores, ao mesmo tempo que o assassino roda o tambor do seu revólver, no qual sobra agora uma munição. Dirigindo-se ao Demónio, com os olhos incendiados pela loucura, pergunta-lhe de forma seca e sem rodeios:

“Vamos jogar à roleta russa?”


domingo, 13 de dezembro de 2009

O amor


O destino de cada um estava traçado desde o nascimento do Universo. A cadeia de acontecimentos despertada pela grande explosão determinou o seu encontro naquele dia, naquele local, naquele instante.

Estava escrito que ela apareceria vestida de branco. Era Verão, e os seus longos cabelos loiros davam sentido à palavra harmonia. Seria o acaso que lhes daria a oportunidade de se olharem, de sorrirem um para o outro, dela ruborizar e dele proferir um “Olá…”.

Mas deus, num celestial acesso de fúria, abriu a terra no local predestinado. Irado com os vitupérios que se iam dizendo a seu respeito na Terra, não vislumbrou outra alternativa senão aquela.

E o mundo, tal qual o conhecemos, ficou dividido em dois. O medo incendiou-se dentro do coração de cada um, não deixando espaço a qualquer outro sentimento. Apenas se vislumbravam seres errantes vagueando por cada meio mundo.

Aos mais resistentes, nos quais o medo não venceu o amor, nasceram asas de Anjo. E foi, num conúbio perfeito, que esse amor voltou a unir o mundo. Porque, sem amor, nunca nada será possível.

Os, até então, quase amantes, puderam então ser amantes em pleno. O desígnio estava, de facto, desenhado.

Quanto a deus, este não foi castigado. Pois deus está em todo o lado, e – ainda assim – nunca se deixa apanhar...


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O alter-ego


Tenho cinco anos. Não terei mais que isso. Estou no meu quarto, sozinho, e estendo as minhas pequenas mãos para a frente. Tomo consciência de que sou um ser racional, de que tenho uma consciência, de que estou vivo, de que existo. Agradeço a Deus a minha existência neste mundo (agradecimento, esse, provocado pela ingenuidade da idade), e sou assomado por uma felicidade sem fim.

A criança conhece, finalmente, o seu alter-ego. E nada voltará a ser como foi…



sábado, 10 de outubro de 2009

deus


Eram três horas da manhã. Abri os olhos e olhei o tecto e levantei-Me e calcei os chinelos e dirigi-Me à varanda.
Lá chegado, encontrei deus sentado na Minha poltrona, disposta num dos cantos do eirado.
Contemplava o céu estrelado, certamente absorto nuns quaisquer pensamentos. Não era o deus que Eu imaginava. Estranhamente, apesar de se encontrar sentado, afigurava-se mais pequeno que Eu.
Começando a sentir-Me incomodado com o silêncio do momento, ganhei coragem e decidi questioná-lo:
“Deus Meu, em que pensas tu?”
“Sabes…”, disse-Me, “estou cansado de ser o ser supremo, o todo-o-poderoso, o senhor do universo, o maior existente, a figura divina máxima. Estou cansado de ser a fonte de toda a obrigação moral, de ser o responsável pela vida e pela morte, pela felicidade e pela tristeza.”
“Mas… que queres dizer com isso, deus Meu?”
“O que quero dizer é que, de ora em diante, serás Tu a ocupar o meu lugar.”
“O teu lugar? Como assim? Se te referes à poltrona, considera-la tua! Não mais preciso dela. Aliás, nem sequer Me sinto digno de Me voltar a sentar nela.”
E deus sorriu.
“Não, não quero a Tua poltrona. Continua a ser Tua, como o sempre foi.”, reforçou. “Chegou o dia de renunciar ao meu estatuto de divindade. Chegou o dia de abraçares esta nova etapa, com a mesma paixão com que tens abraçado a Tua vida. Não receies, não temas, apenas desfruta”.
E, ao mesmo tempo que estas últimas palavras são proferidas, é então que Me sinto… Deus.
Eram três horas da manhã. O deus pequeno levanta-se e abraça-Me e caminha para o Meu quarto e deita-se e fecha os olhos.
Sento-Me na poltrona. Olho o céu estrelado, e perco-Me nos Meus pensamentos.