Mostrar mensagens com a etiqueta Saudades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saudades. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O caminho

Sónia Guerreiro 
Tenho saudades de escrever para ti, mas não te conheço.

A carta voa para um destino incerto, na esperança de ser recebida pelas mãos que a esperam.

Transportada pelo vento, vai perdendo, ao longo do seu trajeto, as palavras que te escrevi.

Atravessa uma tempestade, talvez duas, antes de cair aos teus pés.

"Gosto muito de ti", foi a única frase que a folha de papel guardou.

No céu, o teu sorriso desperta um arco-íris, o sinal pelo qual eu sempre esperei.

Agora, que conheço o caminho, o mundo é meu para sempre.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Um caminho, um instante

Sónia Guerreiro
Esperou por ele um instante. Um número infinito de instantes, talvez. Esperou o tempo suficiente para que o mundo nascesse duas vezes, e ainda assim lhe pareceu apenas um momento. Esperou, enquanto o mundo envelhecia, enquanto as estrelas brilhavam entre si, enquanto os universos se expandiam e contraíam.

Esperou, enquanto a lua embalava as noites e o sol amornava os dias. Esperou, sabendo que ele não mais voltaria, sabendo que a espera seria vã, como se esperasse o passado no futuro, ou o futuro no passado.

Esperou, alimentando a esperança que em si existia, com recordações que foi esquecendo. Porque a memória é traiçoeira, se o é.

Esperou, até se sentir exausta, como se acabasse de nascer e o ar lhe faltasse para poder chorar.

A espera foi madrasta para os sonhos que habitavam em si.

Ele quis reencontrar-te, eu sei que sim. Mas o caminho, o caminho já não tinha o mesmo chão...


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tiquetaque

Ela agarrou-se às palavras soltas que viajavam no tempo, a uma velocidade bem superior à da luz. Palavras intemporais, que perpetuavam um ilusório sentimento de existência.

Levantou-se, por entre alguns suores frios que a haviam atormentado nos últimos instantes, e caminhou até à janela.

A lua não estava presente. De facto, pouco importava. A noite estava escura como breu, o vento soprava à força de pulso (divino, quem sabe?).

Os espíritos, em turba, passeavam sem destino naquela noite fria, quais figuras erráticas à procura do seu lugar.

Perante aquele cenário, ela sorriu, ao mesmo tempo que acendeu um cigarro. Receosa de voltar a adormecer e de não mais voltar a acordar, ali se deixou permanecer, cigarro após cigarro.

Viu o sol e a lua jogarem ao esconde-esconde durante dias e noites a fio, num ciclo que se tornou, impetuosamente, vicioso.

Viu nascer as últimas flores, viu os rios e o mar secarem, viu a neve cair incessantemente, derreter e ser devorada pelo inferno sob os seus pés.

Viu o mundo reduzir-se a pó, sem nunca o ter desejado.

E agora? Agora, que a ampulheta da sua vida perdeu a areia que lhe restava, nada mais há a fazer.

Ela apaga o último cigarro, piscando o olho ao sono que lhe trará descanso...

Tiquetaque. O tempo chegou ao fim.


quinta-feira, 10 de março de 2011

De mãos dadas


Todos os dias, quando acordava, ele sentia a sua presença. Sentia o seu perfume, sentia os seus leves e inaudíveis passos. Imaginava-a assombrosamente bela, esperando que a memória nunca o traísse. Podia jurar que, por vezes, via a sombra dela reflectida ao lado da sua. Não mais que isso, apenas a sua sombra...
Todos os dias, ela tinha a oportunidade de o ver acordar. Seguia os seus passos, cuidadosamente, deixando o seu perfume a pairar por onde passava. Por vezes, por breves instantes, contemplava a sua própria beleza num qualquer espelho. Era apaixonada pela sombra dele, não o queria ver longe de si...
Quando, ao entardecer, ele decidia ir ver o pôr-do-sol junto ao mar, a sua sombra engrandecia. Nesses momentos, o coração dela gozava de uma felicidade extrema, sempre a seu lado até que o Sol desse lugar a um céu estrelado...
Nos dias de pôr-do-sol junto ao mar, ele regressava a casa, pesarosamente, carregando dentro de si um sentimento inexplicável.
Nesses dias, ao deitar-se, e quando o primeiro sonho se preparava para nascer, já ele dormia profundamente a seu lado, sempre de mãos dadas...


terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dois mundos


Era o pombo-correio o responsável pela constante troca de mensagens de amor. Quando um dia a terra se abriu, fruto de um fenómeno hoje tão bem conhecido, mas que naquele tempo ido tanta perplexidade causou, as suas vidas sofreram o maior revés que alguma vez haviam conhecido.

A distância que os separava, desde então, quase que sentenciara o fascinante amor que havia nascido nos seus corações. Ela, habitante do enorme pedaço de terra que se havia deslocado para oeste; ele, ser errante do pequeno pedaço de terra que se havia afastado no sentido oposto.

Perante aquele cenário, perante o afastamento contínuo – relativamente ao ponto de origem – das duas peças daquele estranho puzzle, o pombo tornara-se num meio de comunicação extraordinariamente admirável. Sem ter de atravessar as águas revoltas do novo mar nascido, que todas as embarcações decidia soçobrar, a ave desempenhava o seu trabalho com esmero e tenacidade.

Uma vez que o seu próprio ninho se havia partido em dois mundos, o pombo passava os seus dias num vaivém permanente, tentando, desesperadamente, reencontrar a sua origem.

As mensagens, essas, eram escritas quase à mesma velocidade com que viajavam para as mãos da outra parte. Eram trocadas promessas várias, desejos muitos, saudades infinitas, lágrimas capazes de afogar o mundo... nada escapava à veia literária dos dois amantes, que juravam um ao outro um amor para além do imaginável.

Mas, com o decorrer do tempo, a distância existente entre os dois pedaços de terra foi crescendo. Como consequência desse infortúnio, as travessias do pombo tornavam-se cada vez mais longas, mesmo quando o vento desempenhava um papel de benfeitor. O resultado de tão dolorosa consequência não poderia ser outro: as saudades foram consumindo o espírito de cada um; a distância foi enfraquecendo a pobre ave...

E quando a esperança tendia a extinguir-se, quando os seus corações já só alimentavam cicatrizes resultantes de anos de sofrimento, eis que o improvável toma lugar. Os dois pedaços de terra, após longa viagem em sentidos opostos, voltam a encontrar-se.

No céu, o último voo do pombo é substituído por uma invulgar chuva de estrelas.

Na terra, o primeiro abraço de muitos anos assume o renascer de duas vidas.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

A viagem


Quinze de Agosto do ano Dois Mil e Oito. Acordas com uma ligeira dor de cabeça, massacrado pelo contínuo calor nocturno. O termómetro do teu relógio despertador marca vinte e oito graus celsius. O teu relógio despertador marca as seis horas da manhã.

Não perdes tempo. Tomas um banho rápido, comes uma fatia de pão torrado e bebes um copo de leite frio. A indumentária é a própria desta época. Calçado confortável, uns calções pelos joelhos e uma t-shirt cor da luz. Num dia quente como o de hoje, não vais querer o Sol a rasgar-te o peito.

Sais à pressa de casa, já com uma mochila às costas e o passaporte na mão. Não havias percorrido quinhentos metros, por uma das sete colinas da tua cidade, quando fazes sinal ao condutor do primeiro táxi que avistas. “Para o aeroporto, por favor”, dizes-lhe, logo após teres proferido o “bom dia” mais áspero do último ano.

A viagem até ao aeroporto decorre sem quaisquer sobressaltos. Já no seu interior, e cumpridas as formalidades necessárias para quem se prepara para levantar voo, diriges-te para o local de embarque.

É num ápice que te vês transportado para o outro lado do oceano. Aterras no Aeroporto de Newark, onde te espera um amigo. Trocam um abraço sentido, e logo seguem caminho no seu carro americano. O destino encontra-se em Englewood, a cerca de vinte milhas do Aeroporto.

O teu amigo roda a chave na ignição, a curta viagem chegou ao fim. Abres a porta do carro para sair, quando o relógio marca as treze horas. Cruzas o portão do Brookside Cemetery, sob o olhar atento do teu amigo, que entretanto já se encostou à chapa quente do seu bólide.

As saudades apertam-te o coração, o sangue circula pelas veias mais veloz que nunca. Sentes um nó na garganta, uma vontade imensa de chorar. Os duzentos metros que andaste a partir da entrada, pareceram-te os mais de cinco mil quilómetros de voo que havias acabado de fazer.

Foi em frente da lápide que almejavas reencontrar, que a primeira lágrima caíu no solo verdejante. Aninhas-te a seu lado, tentando alcançar a sua respiração.

“Quinze de Agosto do ano Dois Mil e Sete. Tua para sempre…”


sexta-feira, 21 de maio de 2010

A vida, para além da...


A tua vida era um rascunho. A humildade e inocência que imprimias ao teu quotidiano, permitiram-te ganhar o respeito e o carinho de muitos.

E porquê um rascunho? Não suportavas a arrogância de uns quantos que te rodeavam, a altivez a que recorriam para atingir os seus objetivos, a sobranceria característica dos fracos.

Foste riscando, do teu diário, os dias menos bons. Se tivesse tido de escolher entre ti e deus, a escolha não teria sido difícil: eras perfeita.

Os dias maus foram aumentando. Procuravas, nos meus braços, o calor eterno de quem te amava. E eu amava-te.

Deixaste de olhar para as estrelas. Abraçavas-me, com força, sem conseguires conter as tuas doces lágrimas. O quanto me custava ver-te chorar.

Escolheste o caminho mais fácil. Nunca conseguirei aceitar a tua partida.

Quando chamas por mim e eu não te ouço, quando sinto os teus passos e não te vejo, o meu coração fica mais pequeno. E é nesses momentos que choro as tuas lágrimas.

Ainda hoje te sinto perto, muito perto, quando corro atrás do vento.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sem destino


De mim voaste para bem longe... com as asas até então minhas...

Sem elas nunca conseguirei encontrar-te, sem elas a viagem torna-se ingrata.

Com uma venda nos olhos é como me sinto, de pés e mãos atados, imóvel e flutuando sobre o oceano, no ponto onde a latitude e a longitude igualam o zero absoluto.

Sinto-me um zero. Um zero no meio do oceano, onde a Lua africana desempenha o papel de inquisidora. “Quem és tu nesse mundo? Não és nada, nada foste, nada serás. Desaparece.”

A prisão desfaz-se, mas nem por isso vislumbro mais que um passo diante dos meus olhos. Sinto o frio do oceano, oceano que vira pulmão de aço para me manter refém do meu próprio destino.

Mas qual destino? Existirá realmente um?

Permanecerá a dúvida... sem destino definido.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Na magia de um moinho


Neva lá fora… o frio, esse, reina no mundo exterior.

No interior do moinho, assim como no interior do seu coração, sente-se um calor apaixonado, capaz de derreter a neve que irrompe da escuridão do imenso céu. Cai a noite.

Ela espreita lá fora, enquanto sussurra junto à janela: “Tenho saudades tuas…”.

Ele, sentado no primeiro degrau da escada em caracol, olha na direcção da janela. Não a consegue ver.

Os seus espíritos, hoje separados pela linha invisível que separa a vida da morte, anseiam pelo momento em que se poderão voltar a abraçar, e a tornar um só.

Ela chora. Chora um choro sem fim, acabando por se afogar nas suas próprias lágrimas…

No cimo de um monte, num moinho envolto de magia, duas almas, outrora gémeas, gémeas novamente, unem-se num abraço eterno e verdadeiro…